No recolhimento das Orphãs, a S. Lazaro, uma das pobres meninas ali encarceradas entre as grades de ferro que nos ultimos annos foram sensatamente arrancadas, lia o Amor de perdição, a occultas da regente, entreabrindo a gaveta da sua cómmoda apenas o bastante para alcançar com a vista o espaço de uma pagina. Lia de pé, e fechava com sobresalto a gaveta quando sentia passos. O livro nunca foi surprehendido, mas as lagrimas que a leitura originava, muitas vezes o foram. A regente, D. Maria das Dores, via chorosos os olhos da menina, e perguntava-lhe porque chorava.

—É que estou triste, respondia a educanda.{34}

Mas as tristezas dava-lh'as a leitura fortuita do romance de Camillo.

Favorecia-me na apologia do Amor de perdição o voto auctorisado da intelligente e illustrada dona da casa, que depois nos recordou a belleza do romance O Esqueleto. Eu citei por minha vez A agulha em palheiro, e a Sereia, romance que tem para mim um valor especial, porque reune para a minha saudade os nomes de Camillo Castello Branco e José Gomes Monteiro. O primeiro capitulo é baseado sobre um artigo de Monteiro ácerca do antigo theatro lyrico do Porto, no Corpo da Guarda.

Accresce que o meu exemplar da Sereia tem uma historia curiosa. Na capa, sobre o titulo, ha uma pequena mancha de tinta, que tomou a forma caprichosa de um polygono estrellado. Um dia, sem que eu soubesse como, desappareceu-me da estante; foram baldados todos os esforços para encontral-o no meu escriptorio. Querendo preencher a falta da Sereia na collecção das obras de Camillo, resolvi-me a comprar um novo exemplar. Mas a suspeita de ter sido roubado, fazia com que eu relanceasse a vista por todos os romances portuguezes{34} que encontrava á venda nas lojas de livros em segunda mão.

Passaram mezes, e um dia, n'uma d'essas lojas, na rua Augusta, encontrei um exemplar da Sereia. Tirei-o da estante: era o meu! Na capa amarella, sobre o titulo, o polygono estrellado, o borrão! Perguntei quanto custava. Trezentos reis, respondeu o alfarrabista. Paguei sem discutir. Depois de ter pago, perguntei-lhe:

—Lembra-se de quem lhe vendeu este livro?

O alfarrabista quedou-se a evocar as suas recordações.

Mas devo suppôr que não poude lembrar-se.

Depois de jantar, viemos sentar-nos nos bancos do pateo. A tarde estava serena; as folhas das arvores immoveis. O visconde de Correia Botelho, fumando o seu charuto, conversava animado. Lembrei-lhe que fosse passar o inverno em Lisboa, entre os muitos amigos e admiradores que ali tem. O clima, menos rigoroso que o do norte, deve convir aos seus padecimentos. Camillo não repelliu o alvitre. Mas o projecto de viagem ficou para segunda leitura, quando{35} eu voltasse a Seide para despedir-me. Comprometti-me gostosamente a fazel-o, e espero cumprir.