Logo que pôde desbragar-se de uma pasta, respira em verso. N'este momento está saboreando o goso da liberdade litteraria no seu periodico As Republicas, em que os relampagos da poesia rasgam luminosamente o horisonte caliginoso do artigo de fundo. Não contente de poetar elle proprio, apadrinhou o alvitre de abrir oiteiro semanal onde versejadores adventicios concorram a glosar trovas populares, como esta:
Vi-te sahir mar em fóra,
Ceguei, olhando esse mar,
Porque me disseste:—espera!
Se não tinhas de voltar?
E o mais é que, pelo prestigio da sua auctoridade, consegue tentar aquelles mesmos que, na milicia de Apollo, estão relegados a segunda reserva. Tentei-me eu, e sou d'esses. Mas já que este livrinho é de memorias para a velhice, fique mais esta guardada no archivo da saudade:{30}
GLOSAS
(A THOMAZ RIBEIRO)
Vi-te sahir mar em fóra,
E a saudade que eu senti
Rasgou-me o peito n'ess'hora
Em que chorava por ti.
A ausencia tem tantas maguas,
Tão soffrida heroecidade,
Tanto resiste quem chora,
Que eu puz os olhos nas aguas
E, sem morrer de saudade,
Vi-te sahir mar em fóra.Ceguei olhando esse mar
Pleito de ondas e de abrolhos.
Mas que importa a luz dos olhos,
Se não tenho a quem olhar?...
Tanto a vista me prenderam
As ondas que tu sulcavas,
Que os olhos escureceram
No rumo em que navegavas.
E assim por ti a chorar,
Ceguei olhando esse mar.Porque me disseste: espera!
Na hora extrema, derradeira,
Se já veio a primavera,
Se já floriu a amendoeira,
E tu não voltaste ainda?!
Se este mal era sem cura,
Se tinha de ser infinda
A dôr que me dilacera,
A ausencia que me tortura,
Porque me disseste: espera?!{31}Se não tinhas de voltar,
Melhor eu morresse alli;
Que mais valia acabar,
Que ter de viver sem ti.
Não ha força que resista
Á dôr que nunca descança.
Tivesse eu perdido a vista,
Mas não perdesse a esperança.
Bem feliz acabaria
Alli, á beira do mar,
Se soubesse o que seria,
Se não tinhas de voltar.
Ás quatro horas da tarde, a amabilissima auctora da Luz coada por ferros perguntava-me se eu, sacrificando os meus habitos lisbonenses, seria capaz de jantar áquella hora.
—Em Seide, respondera Camillo, janta-se sempre.
Fomos para a meza, em cujo plateau verdejavam as fructas mais escolhidas da quinta, e em cujo ambiente os acipipes succolentos de uma boa cosinha de provincia punham os aromas de um excellente jantar.
Camillo estivera silencioso durante alguns momentos. Mas eu procurara envolvel-o na conversação. Fallava-se dos seus romances. É difficil escolher o melhor entre os bons; mas eu pretendi negar a primasia do Romance de um homem rico, por{32} saber, desde muito tempo; que Camillo o prefere ao Amor de perdição. Todos nós desejavamos fazel-o interessar pelo assumpto. Foi pois em defeza do Amor de perdição que eu pugnei.
—O Amor de perdição, observara finalmente Camillo, tem lacunas que eu proprio reconheci, e não quiz preencher. Disse-o por essa occasião ao dr. Marcellino de Mattos. Mas o meu proposito foi não alterar a veracidade dos acontecimentos que se encadeavam na dramatica biographia de meu tio Simão Botelho. Escrevi sobre a tradição, respeitando-a como um evangelho de familia. No Romance de um homem rico tive um ponto de vista artistico, planeei e architectei, colori em vez de photographar. Eis aqui a razão da minha preferencia dada ao Romance de hum homem rico sobre o Amor de perdição.
Não me dispensei comtudo de recordar a profunda impressão que este ultimo romance produzira em todos os corações moços d'aquelle tempo ou nos que pelo amor rejuvenesciam. Desvelavam-se as noites na febre da leitura, e reliam-se as paginas mais sentimentaes nas horas de namorada{33} tristeza. Cada qual pedia para si a corôa de espinhos de Simão Botelho, de Thereza ou de Marianna, a auréola da poesia nas angustias do amor. Amar é soffrer. E aquelle livro fallava pelos que soffriam. Se a tua dôr te afflige, faze d'ella um poema, disse Goethe. Ora aquelle romance de Camillo era o poema em que se fundiam as dores de todas as almas excruciadas pelo amor; era o romance de tres, e o poema de todos.