A noite descia lentamente.

As crianças das escolas da capital, que tinham ido acompanhar ao cemiterio o cadaver d'aquelle que para ellas inventara o Methodo repentino, d'aquelle que as ensinara a gorgeiar o alphabeto—porque Castilho{26} reconhecera que os pequenos precisam ser educados como se foram passaros—as crianças, dizia eu, tendo mais a intuição do que a consciencia da perda enorme que acabavam de soffrer, retiravam arregimentadas, duas a duas, em longas filas, com os olhos no chão, n'um silencio triste e n'um passo cadenciado.

Pouco tempo antes, e em mais de uma noite, eu acompanhara Castilho ao camarote n.º 19 do theatro de D. Maria durante as representações do Tartufo. Logo que o panno cahia, desciamos ao palco a passar os intervallos no camarim do actor Santos, que o visconde de Castilho muito apreciava. Castilho, um morto! Santos, um cego! Estas maguadas recordações travam-se no meu espirito como os élos de uma cadeia de saudades que o confrangem.

Eugenio de Castilho nunca o vi; está algemado ao leito ha muitos annos. Mas correspondi-me com elle por intermedio de seu pae, do Porto para Lisboa, quando emprehendeu publicar um jornalsinho litterario, que me parece ter-se chamado a Folha dos curiosos, e me pedia versos que eu lhe mandava, orgulhoso do pedido.{27}

Vieira do Castro, talvez o mais desgraçado de todos, conheci-o pela primeira vez no Porto, na sala da sociedade Patria e familia, durante um sarau litterario em que eu ousei, na sua presença, e na de todo um auditorio muito selecto, recitar um pequeno discurso que ahi corre impresso entre a minha insignificante bagagem de escriptor.

Elle habitava n'esse tempo o antigo mosteiro de Moreira, a dois passos do Porto, e publicava o opusculo A Republica. Era casado e feliz. Chamava-se-lhe então o primeiro orador portuguez, successor de José Estevam. Tinha sido deputado, creio mesmo que o era. Seria ministro de qualquer pasta no dia seguinte. E quando todos esperavam vel-o chegar aos conselhos da corôa, vimol-o partir para o degredo, depois de haver tropeçado no cadaver da esposa que assassinara.

O desgraçado assistira á sua propria queda, que fôra das mais estrondosas em que a curiosidade publica se tem cevado.

O meu thema, as Flores, era um pretexto para fallar do amor. Procurei provar, com mais imaginação do que sciencia, que{28} as flores se entendiam amorosamente como as almas. As senhoras applaudiam. Os homens sorriam. Vieira de Castro, sempre poeta, abraçara-me. E eu, no dia seguinte, dei uma pessima lição em botanica elementar ao professor Almeida Pinto, do lyceu.

Os filhos de Camillo foram homenzinhos, segundo a phrase de Thomaz Ribeiro. Hoje são homens. Mas Castilho já lhes não alcançára o penujar do buço. E se elle vivesse ainda, talvez que o melancolico Jorge, concentrado e sonhador, entendesse melhor do que ninguem, por os amigos silencios da lua, em S. Miguel de Seide, alguma trova do Amor e melancolia que o poeta Castilho viesse de Lisboa ali recitar n'aquellas sombras placidas que aprenderam a venerar o seu nome em torno do monumento singelo.

Thomaz Ribeiro, o eloquente interprete dos filhos de Camillo na aurea côrtesinha litteraria que Castilho encontrara em S. Miguel de Seide, é em 1885 como era 1866 um poeta cuja inspiração roça as azas pela lagoa sombria da politica sem afundar-se, do mesmo modo que as andorinhas, pelas{30} calmas da canicula, esvoaçam sobre a corrente de um rio sem mergulhar.