Fica perto do predio, e á esquerda do portão de entrada, o monumento que a proprietaria d'esta agradavel vivenda ali mandara erigir em honra de Castilho. Essa singela pyramide de granito, sombreada de copadas arvores, tenho-a aqui reproduzida, diante de mim, tambem pelo lapis de Jorge.

Foi penetrado de commovido respeito que eu li a inscripção posta n'esse simples monumento, tão eloquente na sua simplicidade:{23}

ANTONIO
FELICIANO
DE
CASTILHO
PRINCIPE
DA LYRA
PORTUGUEZA
ESTEVE
N'ESTE LUGAR
EM 15 DE JULHO
DE 1866.
MANDOU ERIGIR
ANNA PLACIDO

E na face que fica voltada para o muro:

COM
OS SEUS
DISCIPULOS
THOMAZ RIBEIRO
EUGENIO
DE CASTILHO,
J. C. VIEIRA DE CASTRO,
C. C. BRANCO.

Castilho assistiu á inauguração do seu proprio monumento, e os filhos de Camillo,{24} então duas crianças, offereceram ao poeta venerando, em seu nome, a corôa poetica que para essa commovente festa de familia entretecera a lyra enthusiastica de Thomaz Ribeiro:

Por entre cantos e flores
chegaste, rei da poesia,
como um clarão d'alegria
jorrando em mansão d'amores.

Onde ha rei, ha sceptro e solio!
Rei, vimos trazer-te a c'rôa.
Tens maior côrte em Lisboa,
não tens melhor capitolio.

Somos de troncos robustos
os loiros, os tenros gomos.
Das flores surgirão pomos?
Se Deus regar os arbustos!

Porque és grande, hão de os vindoiros
dar-te a sagração dos hymnos;
porque és bom para os meninos,
toma esta c'rôa de loiros.

Nossa c'rôa e nossas flores
guarda em saudosa memoria;—
o monumento é da gloria;
a c'rôa é só dos amores.{25}

Vaes partir! leva-a comtigo,
e jura por teus carinhos
que, em nós já sendo homenzinhos,
serás nosso mestre e amigo.

Que de recordações melancolicas a inscripção do monumento e os versos de Thomaz Ribeiro fizeram accordar na minha alma!

Castilho, o poeta ali coroado n'aquella apotheóse tão modesta e tão gloriosa, vi-o eu descer ao seio da terra, que elle tanto amava—no seu pantheismo intuitivo de cego ariolo—ao cahir de uma tarde serena e triste, no cemiterio dos Prazeres, em Lisboa.

Rodrigues Cordeiro, com a voz entrecortada de lagrimas e soluços, dissera-lhe, em nome de todos aquelles que o amavam como mestre e amigo, o extremo adeus. Depois, a pedra do jazigo cerrou-se, a barreira da eternidade ergueu-se.