Camillo fallara-me da sua querida netinha—a candida flôr que durara o que duram as rosas, apenas uma aurora.

—Aqui estou, dissera Camillo, na solidão da aldeia, rodeado de arvores melancolicas, e de pensamentos tão melancólicos como as arvores. É notavel, acrescentara, a febre de saudade com que o meu espirito vae, pelo passado dentro, á procura de pessoas que são já mortas, e com as quaes aliaz eu tive ligeiras relações litterarias ou pessoaes. É revolvendo memorias que o{20} meu espirito trabalha e descansa... Tudo isto faz profundamente triste esta casa, onde prematuramente se apagou o unico raio de sol que podia rarefazer as trevas.

É ainda ao periodico Alvorada que eu vou procurar estancias lacrimaveis do avô saudoso e angustiado. Duas quadras—tambem duas quadras—de uma belleza peregrina, que só a saudade de um anjo póde inspirar:

Parecia dormitar: tinha morrido.
Pedi que a não levassem no caixão;
Que a deixassem mirrar e desfazer-se
Como a flor se desfaz sem podridão.

Teimaram em levar-m'a, e eu cingi-a
Ao peito que se abriu pela pressão;
Depois pude escondel-a, e tenho-a morta
No meu despedaçado coração.

Aproveitei o ensejo de dizer-lhe:

—Para os que nunca deixaram de o lêr, e o sabem comprehender, meu bom amigo, não passa despercebido esse novo caudal de sentimento que dá aos seus escriptos mais recentes o encanto dolorido de uma saudade vaga e vaporosa como um subtil aroma que se derrama pelo ambiente da{21} memoria... Pois bem, aproveite esta nova phase do seu poderoso talento, as tintas deliciosas que uma copiosa revivescencia de sensibilidade põe n'este momento na sua palheta de artista, e escreva um romance de amor, sem preoccupações de enredo, ouvindo-se a si proprio; condense n'um livro, que deve sahir encantador, todas essas fragrancias que se perdem no silencio meditativo do seu espirito...

—Não posso, respondeu Camillo, não poderia arrancar sensações de mim proprio sem um esforço fatigante. Um trabalho d'essa ordem deixar-me-ia exhausto de forças. Eu sentia os meus romances, e foram muitos os que escrevi. Só d'aquella banca, que ali está, sahiram cincoenta e dois.

Conversavamos no escriptorio, que fica no segundo andar. É uma sala vasta, luminosa: tres ou quatro largas janellas abrem sobre a quinta.

N'este mesmo andar tem Camillo o seu quarto de cama. A ramagem da acacia do Jorge e a folhagem da trepadeira combinam-se para coar atravez de esmeraldas uma penumbra suave.

No primeiro andar ha duas salas: a do{22} bilhar em que se encontram retratos de familia; o retrato de Herculano, e o de D. Frei Bartholomeu dos Martyres, desenhado pelo Jorge;—e a casa de jantar, cujas janellas dão para o pateo, a que já tive occasião de me referir, sem comtudo pagar o meu feudo de gratidão, como devia, ao pecegueiro frondoso cujos bellos maracotões eu agradeci, ha annos, nas chronicas que por esse tempo escrevia para o Diario Illustrado.