Haverá pouco mais de um mez que todos os jornaes do paiz reproduziram duas quadras de Camillo, as quaes foram publicadas na Alvorada, periodico litterario de Villa Nova de Famalicão. N'essas duas bellas estrophes, que se devem considerar como morbida phantasia de um espirito desalentado, ha uma referencia maviosa a esta frondosa acacia que o Jorge plantára aos oito annos de idade:{17}

Á porta do sepulcro, ainda volto a face
Para vêr-te chorar, ó mãe do filho amado,
Que vê como n'um sonho, a scena do trespasse...
Sorver-lhe o eterno abysmo o pae idolatrado.

Talvez que elle, a sonhar, te diga: «Mãe, não chore,
Que o pae ha de voltar»... Quem sabe se virei?!
Quando a Acacia do Jorge ainda outra vez inflore
Chamae-me, que eu de abril nas auras voltarei.

O visconde de Correia Botelho, ouvindo a minha voz, viera receber-me, acompanhado pelo sr. Espinho, seu hospede, á porta da casa do bilhar.

—É uma visita posthuma! dissera elle, abrindo para mim os braços affectuosamente.

Dei-me pressa em protestar contra esta phrase devida ao desalento de um trabalhador infatigavel, que ha mezes se acha condemnado á inercia por um deploravel accidente que lhe nublou os olhos já cansados de uma diuturna applicação.

Para os que amam o trabalho, os ocios forçados são cansativos e molestos. Pareceu-me ser esta a maior enfermidade de Camillo actualmente. Se elle podesse trabalhar, escrever um dos seus bellos romances em quinze dias, como tantas vezes fizera,{18} se conseguisse por esse meio arrancar-se á intuscepção meditativa em que o seu espirito se concentra, tel-o-iamos de novo forte na sua fraqueza, robusto no seu cansaço.

Mas uma pertinaz nebrina teima em ennevoar-lhe a visão; é de esperar porém que a medicina consiga debellar este incommodo e restituir o eminente romancista á sua banca do trabalho, que lá está saudosa no escriptorio de Seide, recordando a quem a vê que nem menos de cincoenta e dois romances foram escriptos ali.

Ao lado de Camillo, compartindo os seus soffrimentos com uma dedicação heroica, acompanhando-o com uma solicitude extremosa de carinhos, destaca o vulto esculptural d'essa intelligente e formosa senhora que tão bem soube comprehender a grande alma de Camillo nas sublimes melancolias dos seus dias nublados e nas vibrantes alegrias dos seus dias ridentes.

Jorge, o filho mais velho de Camillo, é um espirito dado a vagas tristezas; mas atravez de um véo de lagrimas, que ás vezes lhe marejam nos olhos e nas palavras, descobre-se um talento omnimodo, rico especialmente{19} de aptidões artisticas. Jorge é poeta, é prosador, é musico e desenhista. Eu devo-lhe a amabilidade de me ter offerecido muitos dos esboços que enchem a sua pasta; alguns d'elles teem subido valor, porque são o retrato a crayon dos personagens creados por seu pae no Eusebio Macario: o Fistula, o Barão do Rabaçal, o Abbade de S. Thiago de Faya, a Troncha, o proprio Eusebio.

Nuno, o viuvo, tem vinte annos: é o pae da innocente criança cuja prematura morte deixou aberto no coração do visconde de Correia Botelho o vácuo profundo da saudade.