Ao passarmos n'um vasto carvalhal{15} sombrio, o Bernardo do João de Deus explicou:

—Aqui, pela senhora das Candeias, a dois de fevereiro, faz-se um mercado que mette gente em barda. E todo esse povoleo vae cahir além n'aquella venda a comer e a beber.

Olhei. Á porta de uma taberna, sentados á sombra de uma ramada, quatro homens conversavam na sorna placidez dos ocios domingueiros. É a Casa Havaneza do sitio—com menos tabaco, mas talvez com mais animação: a venda do José Maria, successor do Fanha.

Que fresca e encantadora graça a d'um grupo de crianças, todas ellas loiras e sujas, que brincavam a uma sombra, á beira da estrada, no sitio das Campas! Se as lavassem, se as penteassem, ficariam mais fidalgas; mais bellas e graciosas, não.

O calculo do Bernardo fôra excedido no duplo. Tinha passado cêrca de meia hora, quando elle me disse:

—O senhor vê aquellas casas? Pois a quinta de Seide fica logo ao pé.

Senti precipitar-se no meu coração uma onda de sangue; era a commoção da alegria.{16}

Desembocamos, finalmente, n'um largo sobre o qual abre o portão azul da quinta de S. Miguel de Seide. O arvoredo espreita para fóra por cima do muro. Ladeámos a casa, de dois andares, pintada de amarello, e entramos pela porta de serviço, onde um criado me esperava.

Passei ao vasto pateo, que vi de relance, para subir a escada de pedra, que uma trepadeira de cachos brancos enflora, e uma copada acacia assombreia.

Esta acacia tem uma historia triste. Fora plantada pelo melancolico Jorge, o filho mais velho de Camillo, que eu ainda conheci ao collo da ama, e que momentos depois ia vêr.