AO

PRIMEIRO ROMANCISTA PORTUGUEZ

EM S. MIGUEL DE SEIDE

Eram onze horas da manhã. Acabava, na egreja de Santo Thyrso, a missa do dia. Para o largo do mosteiro vinham sahindo os ranchos dos homens e das mulheres do campo; algumas senhoras, poucas. A manhã tinha estado fresca, segundo me disseram, mas eu perdi a manhã, pela simples razão de ter perdido a noite no arraial da Senhora das Dôres, na Trofa, aonde condescendentemente me deixei arrastar. Quando sahi de casa, seguido pelo criado que levava de redea a garrana, o sol descobria. A consciencia de não ter nascido fadado para cavallarias altas, obrigou-me a ir a{4} pé até um sitio que julguei propicio para me lançar a cima do sellim sem grande concurso de publico.

O criado dizia-me que não conhecia besta melhor do que a garrana.

—Muito fiel! accrescentava elle, inspirando-me confiança, e descendo os estribos.

Para além da ponte, cavalguei.

Pareceu-me que effectivamente a garrana tinha apreciaveis prendas de caracter; entreguei-me á sua lealdade, e posso asseverar que não foi desmentida, durante todo o dia, por nenhum incidente desagradavel.

É a besta mais honrada com que tenho lidado. O criado tinha razão.

—A que horas estaremos em S. Miguel de Seide?—perguntei eu ao Bernardo do João de Deus, nome e alcunha do meu companheiro, para estabelecer dialogo, visto que a garrana não podia, por um erro da natureza, conversar comigo.