—D'aqui a uma hora, n'este passo, respondeu elle. De Landim lá, é um instante.

Landim! repeti eu mentalmente.

Estava, pois, nos vastos dominios romanticos de Camillo, no proscenio florido das suas Novellas do Minho, uma das{5} quaes se intitula O cego de Landim. Á minha direita ficava Monte Cordova, de cuja bruxa o eminente romancista escrevera a commovente historia.

O sol descobrira de todo; os seus raios, como flechas de oiro, cahiam sobre os campos, doirando-os. O calor principiava a ser intenso.

O criado ralhou comigo amoravelmente.

Que se eu me tivesse levantado mais cedo, ponderava elle, não apanharia tamanha calma. E depois podia ser que eu não estivesse habituado. Finalmente, accrescentára que o sr. visconde, prevenido da minha visita, de certo me teria esperado para o almoço.

Que me importava a mim a calma, por maior que fosse? Eu ia vêr, abraçar aquelle que sempre fora para mim o mais dedicado dos mestres, e o melhor dos amigos. O acaso que durante alguns annos nos juntara, separara-nos um dia: elle ficara quasi sempre no Minho; eu vivia em Lisboa. Havia já dez annos que nos não avistaramos. Por isso, ainda que se tornasse preciso um grande sacrificio, de boa vontade eu o teria feito para comprar a felicidade{6} de estar alguns momentos em S. Miguel de Seide.

O caminho não me sahira tão cruel como eu esperava. A breve trecho havia arvores que déssem sombra. Em torno de mim, para qualquer lado que lançasse os olhos, a vegetação era opulenta, feracissima. Os meus pulmões fortificavam-se com delicia n'um bom banho de oxygenio. E, por antithese, lembravam-me os saguões e as escadas dos predios da baixa, em Lisboa, onde se respira um ar mephitico, que asphyxia. De longe a longe, uma casa e um parreiral; os cachos pendentes da latada davam na vista ao criado, que observava:

—Vão amadurecendo bem, graças a Deus!

E tirava o chapeu, respeitosamente, em homenagem ao Creador dos homens e dos cachos.