Um ou outro cão vinha ladrar-nos ao muro do quintal.

Bernardo, todo embevecido na contemplação da novidade, dizia-me que reparasse nas ramadas, onde as travessas de madeira teem sido substituidas por fios de arame.{7} Uma innovação recentemente introduzida no Minho.

—Isto—o arame—observava o Bernardo, dura a vida de um homem.

O calor ia apertando, mordendo. Eu, de quando em quando, aproveitava a sombra de uma arvore para accender um cigarro. A garrana, com uma grande deferencia pelas minhas commodidades e pelos meus vicios, esperava pachorrentamente que eu embrulhasse o cigarro e o accendesse. Eu, em compensação, para ser grato, sacudia-lhe as moscas com a ponta da vergasta. E não se pense que me custava pouco esta retribuição amavel da minha parte: as moscas, enxotadas da garrana, vinham para mim. Uma mordeu-me no pescoço com a mesma gana com que o teria feito á cavalgadura, em igual sitio.

Confundiu-nos! o diabo da mosca!

O Bernardo pedira licença para despir a jaqueta. Já não podia aguental-a com o calor. Ás vezes tirava o chapeu, e limpava-se. A sua cara escorria ressumbrações de suor. Não obstante, o Bernardo acompanhava a garrana com o seu passo largo e firme, de caminheiro intrépido e experimentado.{8} Eu disse-lhe que sentia haver-lhe dado incommodo em dois dias consecutivos, porque na vespera fôra elle de Santo Thyrso a Seide, por ordem minha, com uma carta para o visconde de Correia Botelho, a fim de me certificar de que o encontraria no dia seguinte.

—Isto não é nada, respondeu o Bernardo. Pelo S. Thiago fui ao Porto e vim, no mesmo dia.

E com o corpo lançado para diante, meneiando os braços n'uma oscillação de pendulo, continuava a acompanhar intrepidamente a garrana, não suando menos do que ella.

Elle ia-me nomeando os sitios por que passavamos:

—Isto aqui é a Fonte da Gallega.