A sua obra reflecte, como um espelho, a imagem da sua alma; traça com uma linha geographica os limites da sua honesta actividade intellectual. Educar pela lição grandiosa do passado e pela disciplina religiosa do catholicismo, foi o seu lemma, o seu fito, a sua tarefa.

Começou desde muito novo a trabalhar. Aos doze annos publicou um poema heroico, David triumphante, entrou no mundo das lettras pela porta da oitava-rima. Era a manifestação precoce de um espirito antigo, que parecia ter regressado n'aquelle momento de Constantinopla, invadida pelos turcos, salvando sobraçado o ultimo thesouro da civilisação greco-romana. Não chegou cantando o amor, como todos, adejando por sobre os rosaes floridos da poesia subjectiva. Não. Foi recolher-se na Italia, abrigar-se no palacio dos Medicis em Florença, conversar em Roma com Leão X e Julio II, preparar em espirito a Renascença. Assistiu mentalmente á dieta de Spira, e assim como apoiou os papas na resurreição artistica do passado, apoiou-os tambem na lucta tenaz do catholicismo contra Luthero. Partindo da Renascença, parou horrorisado deante da Reforma. Áquem da Reforma, eram tudo ruinas, a demolição do passado pela alavanca da impiedade. Mas a sua convicção{163} era de tal modo pura e profunda, entrincheirava-se tão fortemente n'um baluarte de sciencia, que conseguiu atravessar o mundo, até á extrema velhice, sem que os desgostos, as injustiças, os sarcasmos lograssem fazel-o vacillar um momento.

Eu tenho aqui, deante de mim, as Tentativas Dantescas do conselheiro Viale, a sua traducção do Inferno prefaciada por uma notabilissima carta de elrei D. Pedro V.

As palavras que o traductor me dirigiu, traçadas de seu proprio punho, na sua calligraphia senilmente arqueada, constituem a mais amavel das dedicatorias.

Eu era por esse tempo professor de historia de seu filho Luiz Filippe, um moço que ha de honrar largamente, nas lettras patrias, a tradição erudita do pae. O conselheiro Viale deu-me, durante esse anno lectivo, as mais subidas provas de consideração em que eu não deixei nunca de enxergar o coração affectuoso do pae através dos repetidos favores com que o academico, o professor, o hellenista confundiam a minha humildade de homem de lettras. Eu não havia de ser o juiz official dos meritos de seu filho, não dependia de mim a sentença do seu exame, mas comprehendia que Viale me pedia, de um modo captivante, que ensinasse áquelle que devia ser o successor do seu nome tudo quanto na exiguidade do meu peculio historico lhe pudesse ministrar.

Desde essa época, sobre a qual já vão passados alguns annos, nunca mais tornei a avistar-me com o conselheiro Viale.

Maio de 1889.

[13] Só muitos annos depois vim a saber em Lisboa que fôra Camillo Castello Branco que me indicára áquelles editores na occasião de ter declinado o convite que elles lhe dirigiram.—Nota da 2.ª edição.

[14] Tambem já falleceu, mas os filhos mais novos continuaram com a tipographia, que ainda subsiste.—Nota da 2.ª edição.