Comecei a escrever a Porta do Paraiso no Porto. A meio do romance, caiu-me em casa um despacho para a secretaria da Procuradoria Regia de Lisboa, e vim tomar posse do logar. Escrevi em Lisboa alguns capitulos da novella. Voltei ao Porto, e continuei lá trabalhando. Vim definitivamente para Lisboa, e escrevi aqui os ultimos capitulos.

Estive dez annos na Procuradoria Regia vivendo como um Creso na rasão de 600 réis por dia...

Perdão! Não era isto o que eu queria dizer.

Foi depois da minha installação definitiva em Lisboa que conheci o conselheiro Antonio José Viale. Fui-lhe apresentado por Silva Tullio na Bibliotheca Nacional. Como eu não vim occupar uma posição brilhante, d'estas que logo põem em evidencia um homem, ainda que elle valha pouco, fui vagarosamente fazendo a minha provisão de relações sociaes, conhecendo hoje um politico notavel, ámanhã um litterato distincto; hoje um actor, ámanhã um jornalista: construindo eu proprio, laboriosamente, o meu edificio, pedra a pedra, dia a dia.{161}

Viale estava trabalhando n'um gabinete da Bibliotheca Nacional, quando eu cheguei com Silva Tullio. Agradou-me, logo ao primeiro relance, a sua cabeça de velho. Como fosse muito miope, Viale poz uma lente para fixar a minha phisionomia. Estive em foco alguns momentos. Falando-me com extrema amabilidade, destacava as suas palavras n'um tom gravemente conceituoso, que o habito do professorado explicava. E na sua maneira de pronunciar havia um tic original, que fazia retinir algumas sillabas.

Mostrou-se admirado de que eu, um recemchegado das lettras, quizesse espontaneamente conhecer um velho academico. Fez sentir que o grito de guerra, dos arraiaes litterarios, era «Place aux jeunes», ainda que para abrir logar aos moços fosse preciso demolir os velhos.

Viale tinha sido varias vezes tratado com injustiça pelos que chegavam. O seu resentimento era fundado. A injustiça desmandára-se até á jogralidade. E elle, que sabia profundamente o muito que sabia, magoava-se com razão de que a multidão dos novos passasse sob a sua janella, em tumulto revolucionario, apupando-o, ridicularisando-o no seu apego a Homero, no seu fanatismo por Pindaro. A maior parte dos novos não sabiam grego. Todo o crime de Viale era sabel-o.

Falou-me da Porta do Paraiso, disse-me que o livro lhe avivára recordações saudosas de el-rei D. Pedro V é da rainha D. Estephania; que de ambos fôra professor; e que tendo ido á Allemanha, para ensinar portuguez á mallograda rainha, havia publicado a seu respeito um opusculo, que eu alias só conhecia por uma transcripção. Offereceu-me esse opusculo e mandou-m'o d'alli a dias: Apontamentos para uma biographia de S. M. a rainha a senhora D. Estephania de saudosissima memoria, Lisboa, 1859, sem nome de auctor.

Os seus profundos e sinceros sentimentos religiosos evidenciaram-se logo ás primeiras palavras, denunciando{162} a firmeza convicta de um crente. Viale viveu sempre em plena religião. Catholico, adorava Deus e acatava profundamente a auctoridade da igreja romana; homem de lettras, adorava o classicismo, dormia, como Alexandre, com Homero á cabeceira, e adormecia talvez depois de ter rezado uma oração a Deus e recitado um trecho da Illiada ou uma ode de Pindaro.

Collaborou no Jornal da Sociedade Catholica, redigiu o Catholico, traduziu o primeiro canto da Odissea, o sexto da Illiada, os cinco primeiros cantos do Inferno de Dante, o episodio do conde Hugolino, e bosquejou em oitava rima a historia de Portugal, propagando pelas escolas de instrucção primaria as tradições gloriosas do passado.