Ha annos Camillo viera de fugida a Lisboa, e hospedára-se no Hotel Universal. Jantei ali com elle e, quasi ao terminar o jantar, entrou Silva Tullio. Conversamos no quarto de Camillo até as dez horas da noite. Pois muitas vezes Silva Tullio tratou Camillo por mestre.


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XIX

Conselheiro Viale

Um dia, sem que eu o pudesse esperar, chegou-me ao Porto uma carta dos srs. Lucas & Filho, proprietarios da Bibliotheca Universal, convidando-me para escrever um romance historico.[13]

Puz as minhas condições, que foram acceitas, e o romance Annel mysterioso começou a ser publicado em fasciculos.

Ia em meio a publicação, quando nova carta dos srs. Lucas & Filho me instigou a escrever outro romance, para seguir-se immediatamente ao Annel mysterioso.

Aquelles editores davam como razão d'esta proposta o facto de ser recebido com agrado o meu romance que estavam publicando.

Confesso francamente que me encontrei n'uma situação embaraçosa lembrando-me de que é sempre difficil agradar na repetição, e de que a empresa editora poderia ser prejudicada pela aventura de querer que eu succedesse a mim proprio. Non bis in idem, diz o proloquio. Escogitei então na escolha de um assumpto que lograsse despertar maior interesse do que o Annel mysterioso,{160} e ao cabo de dois ou tres dias pareceu-me haver encontrado a chave do enigma. Não estando ainda explorada a lenda piedosa que se havia formado em torno do sarcophago de D. Pedro V, afigurou-se-me que esse assumpto valeria por sua mesma popularidade. Como eu era o primeiro a encher a bilha, teria em meu favor a abundancia da fonte. Acabada a publicação do Annel mysterioso, seguiu-se immediatamente a da Porta do Paraiso, chronica do reinado de D. Pedro V. E assumpto foi esse tão simpathico aos leitores, que deixou lucros á empresa editora. Lucas filho morreu pouco tempo depois, mas ainda vive o pae,[14] com tipographia na rua dos Calafates, e esse poderá dar testemunho de que é inteiramente exacta a minha narrativa.