—Olhe lá. Voce diz no Guia do viajante no Porto que eu nasci aqui. É engano. Sou de Aveiro—como os mexilhões.

Despedimo-nos rindo. Nunca mais falámos.

Antonio da Silva Tullio era um homem muito original, sempre atarefado, gritador, ás vezes tão precipitado que não se sabia bem o que elle queria dizer ou fazer. Muito activo, muito illustrado, não deixou comtudo uma obra litteraria que pudesse dar na vista á posteridade. Espalhou muito trabalho ás rebatinhas, e em pequenas doses, pelos periodicos litterarios da sua mocidade, A Semana, por exemplo. O que lhe conheço de melhor são as monographias sobre D. Catharina de Bragança e a Casa dos Bicos, bem como os Estudinhos de lingua patria, publicados no Archivo Pittoresco. De resto não consolidou o seu nome litierario n'um trabalho de folego. Faltavam-lhe, para isso, paciencia e methodo. Comtudo, era um homem de vastos conhecimentos litterarios.

Conservador da Bibliotheca Nacional de Lisboa, pôde ter muito emquanto teve boa saude. Era um catalogo vivo, e comtudo havia na Bibliotheca muita cousa que lhe escapára por falta de catalogação.

Quando eu escrevi o Livro das lagrimas para a casa Mattos Moreira, quiz conhecer tudo o que na Bibliotheca havia com relação a Santo Antonio de Lisboa.

Esta investigação era difficil, mas Silva Tullio citou-me logo, de cór, mais de quinze livros que tratavam do assumpto.

E no dia seguinte mandou-me para casa não menos de outros quinze livros.

Era em extremo obsequiador, serviçal, amavel. Ás vezes pedia-lhe a gente qualquer cousa. Elle, parecendo sempre distraido, respondia affirmativamente. Passavam-se dias sem que cumprisse a promessa. «Lá se esqueceu o Tullio do que eu lhe pedi!» Pois não tinha esquecido. Quando já menos se esperava, dava accordo de si, satisfatoriamente.{158}

Viveu muito na intimidade de Alexandre Herculano, e pensava em colleccionar as cartas do grande historiador, mas não o chegou a tazer. O tempo fugia-lhe, não só porque elle o perdia com os outros, mas porque tambem lh'o levavam a Bibliotheca Nacional, a Academia, e o Conselho Superior de Instrucção Publica. E de mais a mais faltava-lhe methodo para trabalhar. Foi sempre o grande defeito das suas qualidades.

Conhecia bem a lingua portugueza e, sem ser um estilista, escrevia com pureza e elegancia. Apreciava muito estas qualidades nos outros, especialmente em Camillo Castello Branco, por quem, desde certo tempo, teve uma grande admiração. A Semana, jornal que Silva Tullio dirigira de 1851 a 1852, atacou violentamente Camillo no seu noviciado litterario. Mas o tempo passára evidenciando a supremacia intellectual de Camillo, o tempo sazonára as suas grandes aptidões litterarias, e Silva Tullio tornára-se um dos mais enthusiastas admiradores do eminente romancista.