Tenho-me dado bem com este conselho; e, quando o não sigo, arrependo-me.
Augusto Soromenho teve contendas, inimigos, desgostos. Passou metade da sua vida a estudar e outra metade a brigar. Quando entrei na Academia, estava ainda muito viva a lembrança de azedas discussões que elle lá tivera, com este e aquelle socio, por causa d'isto e d'aquillo. Sem embargo, e talvez por isso mesmo, Soromenho prestou bons serviços á Academia, de que fôra bibliothecario durante muitos annos.
É frequentissimo compulsar um livro qualquer da Bibliotheca de Jesus e encontrar dentro d'elle uma etiqueta que diz: «Adquirido pelo bibliothecario A. Soromenho para preencher a falta do exemplar da livraria.»
Bastaria só este serviço, muitas vezes repetido, para mostrar quanto Soromenho se dedicára pela causa da Academia.
Eu, que desde alguns annos converso mais os livros que os socios da Academia, lucrei sobremodo com a passagem de Soromenho pela bibliotheca d'aquelle estabelecimento, que ás vezes parece mais morto que vivo.
Não conheci nunca, no trato particular que tive com Soromenho, a irritabilidade agreste que muitos lhe attribuiam. Queixava-se, é certo, mas não se queixava mais nem menos do que todos quantos julgavam ter razão para o fazer. Não se vive largo tempo n'uma sociedade de homens do mesmo officio sem razões de{156} queixa. Peor do que uma sociedade de homens do mesmo officio só talvez uma sociedade de mulheres da mesma profissão. Quem melhor poderia dizer se isto é ou não inteiramente verdade, não o dirá por certo. Refiro-me ao sultão da Turquia e ao imperador de Marrocos, que têem serralho.
O que eu sempre reconheci em Augusto Soromenho foi um grande, um ardente desejo de estudar e saber. Elle defrontava-se corajosamente com todos os assumptos, por mais ponderosos que fossem. Tinha vindo socialmente de uma posição obscura, e litterariamente do lirismo romantico. Entrou no mundo das lettras com um livro de versos, o Diwan. Mas á força de trabalho e perseverança nobilitara-se social e litterariamente. Investiu com as mais intrincadas questões de philologia, de historia, de epigraphia e de direito. E conseguindo, por um grande esforço de naufrago, emergir á superficie do mundo litterario, como professor e academico, certamente teria que combater e que soffrer, porque ninguem vence os outros sem ficar vencido de si proprio...
Apesar de robusto—Soromenho era um homem forte, com uma phisionomia algum tanto arabe—morreu relativamente novo.
A ultima vez que lhe falei foi no Jardim da Cordoaria no Porto. Elle tinha ido áquella cidade como examinador de não sei que disciplina de instrucção secundaria; eu fui de Lisboa visitar a minha familia. Conversámos toda uma tarde. Soromenho contára-me casos, coisas da Academia e das litteratices lisbonenses. Animando-se na conversação, levantava-se, e então a sua bella figura de homem forte destacava-se como a de um luctador inquebrantavel. Usava sempre chapeu baixo, e a roseta de não sei que ordem portugueza ou estrangeira. Em rosetas não sou forte; entendo-me melhor com as rosas.
Lembro-me de que á despedida elle me dissera:{157}