Mas, logo que o redactor saía, o Villemessant, o dono do jornal desapparecia completamente. Teixeira de Vasconcellos voltava a ser, para o desertor do seu jornal, o homem de sala, amavel, serviçal, obsequiador.
As pequenas nuvens, que tinham empanado o céu, rasgavam-se. E Teixeira de Vasconcellos recebia cordealissimamente os homens com quem, no trato familiar de todos os dias, havia tido frequentes pegadilhas.
Foi o que aconteceu comigo.
Depois que sai da redacção do Jornal da Noite vivemos deliciosamente. Se escrevia a meu respeito, fazia-o com extrema amabilidade. Se eu o visitava, acolhia-me gentilissimamente. E algumas vezes, na minha presença, vi soffrer torturas alguns dos seus redactores, como eu havia soffrido. Mas, acabando de ser Villemessant para os outros, voltava-se para mim sorrindo e continuando a conversar placidamente.
Visitei-o muito durante uma pneumonia dupla de que foi atacado, e assombrava-me o bom humor, sempre um pouco mordaz, só intermittente para os de portas a dentro, que elle conservava n'esse lance perigosissimo.
Já de Paris, onde morreu, e pouco antes de morrer, mandou-me um pequeno artigo, que eu lhe havia pedido para uma publicação do editor Chardron e que, não havendo sido publicado, deve ter apparecido no espolio d'aquelle editor.{155}
Foi o seu ultimo escripto, e tem, por isso, maior valia. Pena é conservar-se inedito.
Teixeira de Vasconcellos viveu uma vida accidentada, mas o seu lucido espirito colheu e aproveitou as lições da experiencia.
Sempre me hei de lembrar de um conselho que elle me deu:
—Se receber um livro mau, cale-se; se receber um livro bom, elogie-o.