Tive a audacia de querer aprender, por mim mesmo, o caminho do Diario de Noticias, e não me ficou barata essa audacia. Perdi tempo e passos. Mas sustentei heroicamente o meu capricho: não fiz uma pergunta sequer. Aprendi n'aquella noite a complicada topographia do Bairro Alto, levei a cabo a exploração, sabe Deus com que trabalho!
Finalmente, entrei na redacção do Diario de Noticias quarenta minutos depois da hora aprazada.
Contei a Eduardo Coelho, que eu via pela primeira vez, embora tivesse estado com elle em communicação epistolar, a causa da minha demora.
Elle, de flôr ao peito, muito alegre, muito bem disposto,{166} riu da minha aventura e, ficando silencioso um momento, acabou por dizer-me:
—Sabe uma coisa? Gosto d'isso. Affirma um caracter. Você é um homem capaz de luctar, de soffrer para vencer. Perdeu quarenta minutos á procura do Diario de Noticias, mas ganhou o ficar habilitado a tornar cá com os olhos tapados.
Apresentou-me a todos os seus collegas de redacção, captivou-me com aquella sincera bonomia que era a feição predominate do seu caracter affectuoso: ficamos amigos.
Fomos d'ali para o theatro do Gimnasio ver o terceiro ou quarto acto de uma comedia, que já não sei como se chamava; Mas, pouco antes de acabar o espectaculo, Eduardo Coelho despediu-se. Ia fazer a meia noite, com a sua familia, disse-me. Eu não sabia o que era fazer a meia noite. Coelho riu-se.
—É o que lá, para as nossas provincias, se chama a consoada, a ceia do Natal.
Foi assim que eu conheci pessoalmente Eduardo Coelho, proprietario e redactor principal do Diario de Noticias.
Em maio de 1889 chegava eu á gare de Campanhã, no Porto, em virtude de um acontecimento de familia, que me trazia então dolorosamente preoccupado. Ouvi dizer a um companheiro de viagem, que estava lendo o Jornal da manhã: