—Morreu o Eduardo Coelho.
—De repente?
—Sim, de repente.
—Hontem á noite, quando saímos de Lisboa, nada constava...
Tive sincera pena da morte d'esse homem bom, trabalhador e alegre, que foi, deve dizer-se, uma das forças do seu tempo.
Depois de haver sido um dos vencidos da vida (não no sentido pantagruelico que esta denominação está{167} tendo hoje, mas no sentido economico e abstemio) elle conseguira, graças á sua imaginação, ter uma idéa que o salvasse.
Citam-se os grandes generaes e os grandes inventores porque tiveram uma idéa: seja um plano de batalha ou a invenção de uma machina. Eduardo Coelho teve tambem uma idéa, que, sem embargo de lhe ser pessoalmente proveitosa, tem aproveitado a muita gente: lançar um jornal de dez réis para noticias e annuncios.
Mas não basta ter uma idéa: é preciso sabel-a conduzir. Eduardo Coelho affirmou esse duplo merito, e a sua idéa, feita jornal, conservou sempre a direcção que elle lhe deu, ganhou velocidade, está em movimento, já não poderá desgarrar-se.
Litterato, gostando do theatro, gostando de fazer romances e dramas, folhetins e versos, elle teve comtudo o bom senso de nunca ser tão exclusivamente litterato no seu jornal que pudesse com isso prejudicar a indole noticiosa e popular do Diario de Noticias.
Redigindo-o, acommodava-se, aninhava-se dentro do circulo de Popilius que a si proprio se havia traçado, e se as saudades da litteratura o tentavam a fazer arte por amor da arte, deitava o seu livro, espanejava-se em liberdade n'um volume independente, que era uma especie de gazeta feita... á gazeta.