Mas os moldes do Diario de Noticias nunca foram alterados, o artigo litterario nunca floresceu tanto que ensombrasse a noticia, a blague phantasista nunca se permittiu nutrir á custa do chocolate do annuncio—este Mathias Lopes da imprensa quotidiana.

Dizer o que se passava, com uma grande investigação de pormenores, mas sem refolhos de linguagem que ameaçassem attenuar ou esfriar o interesse do leitor, eis o proposito inicial do Diario de Noticias.

Contar as occorrencias como qualquer pessoa que chegasse á escada as poderia contar, ainda sob a primeira impressão, e sem retoques de litteratice, n'um{168} tom que tanto pudesse servir para o visconde do primeiro andar como para a velhinha do quinto, eis o que o Diario de Noticias se propoz conseguir, e realisou.

Os litteratos, sempre n'um falso ponto de vista, mordiscavam ás vezes a epiderme do Diario de Noticias: queriam-n'o mais enlitteratado, mais pintalegrete em estilo. Eduardo Coelho nunca permittiu á sua vaidade que fosse susceptivel a estas agulhinhas da critica do Martinho. Seguia o seu caminho, tranquillamente, resolutamente, e, graças ao seu trabalho honesto e indefesso, ia construindo predios na rua dos Cardaes ao passo que os seus criticos, trabalhando sempre, mas com peor orientação, viviam em casa de renda, com difficuldade em pagal-a.

Pela firmeza com que soube sustentar o seu proposito, conseguiu que Lisboa inteira se cousubstanciasse com o Diario de Noticias, que, se o lermos com attenção, é a chronica da capital, escripta dia a dia, na flagrante nudez da sua verdade anatomica.

Toda a gente espera mais ou menos (incluindo os litteratos) que chegue á porta esse vigilante mensageiro de todas as manhãs. Os outros jornaes podem interessar-nos mais ou menos sob o ponto de vista exclusivo das nossas predilecções pessoaes ou politicas; mas o Diario de Noticias diz-nos o que ha a dizer com a brevidade de quem dá um recado, informa-nos, faz-nos a sua vénia, e deixa-nos em liberdade para lermos, consoante nosso gosto, os outros jornaes. É e não é um concorrente perigoso para as novas empresas jornalisticas, porque os dez réis que elle custa cristalisaram no orçamento domestico da população lisbonense, converteram-se em despesa ordinaria, não entram em linha de conta para o gasto, maior ou menor, que hajamos de fazer com os outros jornaes que se vendem avulso.

A velhinha da mansarda já tem como certo que, além do indispensavel á sua alimentação, ha de gastar um{169} vintem por dia: dez réis para o seu Diario de Noticias, dez réis para o carapau do seu gato.

Ás cinco horas da manhã, quando a gente parte ou chega de uma viagem, todos os moços de fretes lêem preliminarmente o Diario de Noticias, encostados ás esquinas das ruas.

Ora o moço de fretes é incapaz de perpetrar uma extravagancia dispendiosa. Harpagão das esquinas, trabalha para amealhar, com os olhos postos no seu ideal gallego de repatriar-se remediado. Mas no sindicato das maltas, para alimentação, renda de casa e despesas miudas, entra a verba effectiva do Diario de Noticias, cuja leitura se faz, as mais das vezes, em voz alta, para o grupo todo.

É isto ou não é isto?