Alguns jornaes republicanos accusam Costa Cabral de renegado.

Ah! santo Deus! a quantos republicanos não póde ser feita igual accusação!

Tudo isto não faz senão confirmar que a politica é, essencialmente, uma força instavel, que se impõe muitas vezes á vontade dos homens, subjugando-a.

Cada vez estou mais inclinado a crêr que não ha principios absolutos, nem na sciencia, nem na politica, nem em cousa nenhuma. Ao sistema astronomico de Ptolomeu succedeu o sistema astronomico de Copernico. Em politica tem-se visto tal paiz, como a França por exemplo, ser alternadamente monarchico e republicano. E cada individuo muda dentro de si mesmo centenas de vezes.

Costa Cabral, como chefe de partido, deu o exemplo da maior solidariedade politica que depois de 1834 se tinha visto n'este paiz. Por isso mesmo chegou a rodear-se{176} dos mais dedicados amigos. Quem não era por elle, era contra elle. Elle realisou na sua vida politica, praticamente, esta maxima da sabedoria das nações: A união faz a força.

O sr. Oliveira Martins accusa-o, no Portugal Contemporaneo, de ter governado sem um principio moral. Ah! Diogenes da politica, accendei as vossas lanternas, e procurae os principios moraes de todos os governos... Haveis de ficar ricos com o achado!...

Se Costa Cabral tivesse querido, ou podido, desenvolver a viação publica, como o fez Fontes Pereira de Mello, se tivesse interessado no seu governo as classes operarias do paiz, ter-se-hia decerto eternisado no poder.

Foi, a meu ver, o seu grande erro politico.

Setembro de 1889.

[15] Esbocei saudosamente o seu perfil no livro Figuras humanas.—Nota da 2.ª edição.