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XXII

Alexandre da Conceição

Alexandre da Conceição estudava engenharia civil na Academia Politechnica do Porto quando eu tentava na imprensa a minha estreia litteraria. Era um dos poetas novos da phalange de Guilherme Braga, José Dias d'Oliveira e Pedro de Lima. Digo dos novos, em contraposição ao Alexandre Braga, ao Arnaldo Gama, e outros, que haviam quasi abandonado as musas a esse tempo.

Principiou militando nas fileiras do romantismo, que era a corrente dominante da época. Em 1865 reuniu em volume as suas poesias sob o titulo de Alvoradas. E dez annos depois fez segunda edição augmentada com novas composições.

Como poeta, se não podia medir-se com a estatura genial de Guilherme Braga, era comtudo muito distincto. Dou como specimen aquella das suas poesias que teve maior voga. O leitor, se nunca viu o livro Alvoradas,{178} póde ajuizar, pelo specimen, do valor de Alexandre da Conceição como poeta:

PERGAMINHOS

Não me esmagam, mulher, os teus sorrisos;
Eu tenho mais orgulho do que pensas
E rio-me tambem;
É debalde que tentas humilhar-me,
Porque eu ouso pensar—vê tu que insania!
Que tambem sou alguem.

Alguem que veio ao mundo sem familia,
Um producto do acaso, um paria, um misero,
Um engeitado emfim,
Um sêr sem protecção das leis canonicas,
Filho sem pae no assento do baptismo,
Mas um sêr, inda assim.

Levantou-me da estrada do infortunio
Um homem que entendeu que um filho espurio
Tem jus a protecção,
Um homem que entendeu que é vil e infame
Atirar para o lodo dos hospicios
Uma alma em embryão.

Este homem deu-me a força do seu braço,
Legou-me em vida o seu honrado nome...
Vestiu quem era nu,
Depois, quando me viu robusto e forte,
Disse-me um dia: «Vae, sê homem, lucta,
Trabalha agora tu.»

Luctei, passei curvado sobre os livros
A mais florida quadra dos meus dias
Sereno a trabalhar;
Estudei, progredi, illuminei-me
E um dia para entrar em novas luctas,
Pude emfim descançar.

É que eu vi as premissas da victoria,
O applauso espontaneo dos estranhos
Incitar-me a seguir,
É que eu via deante dos meus passos
Rasgar-se ampla, infinita, luminosa
A estrada do porvir.{179}

Se alguma cousa sou a mim o devo,
Ao meu trabalho honrado, ao meu estudo,
Ao amor de meus paes,
Á força de vontade, á intelligencia,
Á sociedade pouco, ás leis bem menos...
E a ti não devo mais.

E és tu que vens fallar-me em pergaminhos?
E és tu que vens fallar-me nas riquezas
Que o destino te deu?
Eu não troco os meus louros de poeta,
As conquistas do estudo e o meu futuro
Por tudo quanto é teu.

És louca!... Sabes lá que orgulho é este
Do homem que a si só deve o que vale
E que espera valer?
Ha lá brazões illustres que equilibrem
Estes louros viçosos d'um triumpho
Que soubemos mercer?

És louca! Sabes lá como eu sou rico,
Rico de muita honra e muita esp'rança
E muito coração?
És louca! Mostra a escravos as riquezas,
Que eu p'ra não adorar bezerros de ouro,
Sou bastante christão.

E quem te disse a ti que eu te invejava
Esse ouro, que é teu unico prestigio
E o nome a teus avós?
Orgulhosa!... pois julgas decidido
Qual seja, n'esta lucta de vaidades,
O mais nobre de nós?

Pois julgas que ser nobre é mero acaso,
Uma questão de berço ou de destino,
Uma questão de paes?
Não vês que se a nobreza fosse heranca,
Tendo eu e tu por paes Adão e Eva,
Seriamos eguaes?

E não somos, bem vês, porque a nobreza
Não se lega, conquista-a a intelligencia,
O talento, as acções;{180}
Ora eu, se me permittes a vaidade,
Colloco um pouco abaixo dos meus louros
Todos os teus brazões.

Devolvo-te portanto os teus insultos
E a suspeita de te adorar os risos,
Que nunca mendiguei;
Se és bella e tens orgulhos de rainha,
Mulher, entende bem, eu sou poeta,
Tenho orgulhos de rei.

Que é esta a nossa força; n'estes tempos
Em que a estupidez má enche as mãos d'ouro
Para nos insultar,
É modestia a orçar pela baixeza
Não fazermos sentir aos maus e aos futeis
Quem devem respeitar.

Não me compares, pois, a horda ignara
Que te adora os sorrisos pelo ouro...
Eu tenho coração,
Tenho por pergaminhos o trabalho,
Por thesouros a minha intelligencia
E a honra por brazão.

Nós, os homens que andamos procurando
Á luz do coração por este mundo
Os caminhos do bem,
Como trazemos alto o pensamento
E a fronte erguida ao céo, temos orgulho,
Bem vês, como ninguem.

Em 1867 publicou o poemeto Abençoada esmola, que considero inferior á maior parte das composições incluidas nas Alvoradas.

A este tempo, já era engenheiro ou estava perto de o ser. O theodolito prejudicára a inspiração. Sem embargo, sente-se ainda na Abençoada esmola a destreza de um poeta, que as asperezas da vida haviam chamado a prosaicas occupações.