E todavia elle tinha a velleidade de querer encontrar poesia na mathematica, que se via obrigado a cultivar. Era talvez um processo para illudir-se. A este respeito{181} discutimos n'uma serie de cartas publicadas no Jornal do Porto desde dezembro de 1871 a março de 1872.
A discussão terminou em boa paz; ficamos mais amigos do que eramos antes. Uma das minhas primicias litterarias fôra justamente beliscada por Alexandre da Conceição n'um folhetim do Nacional. Quando a questão rompeu no Jornal do Porto, tudo fazia suppôr que viesse a azedar-se, mas quiz por excepção a minha boa fortuna que eu ficasse sendo favorecido d'ahi em deante com a estima cordealissima de Alexandre da Conceição, sem embargo das nossas frequentes divergencias de opinião, especialmente em politica.
Elle era republicano, e prestou bons serviços ao partido em que militava, sobretudo como jornalista. Muitas vezes veio á imprensa, com nobre independencia, affirmar e defender as suas convicções. Não havia conveniencia de situação que lhe atasse os braços. O seu caracter era resoluto na expansão das suas convicções.
Em 1881 Alexandre da Conceição travou uma aspera peleja litteraria com Camillo Castello Branco, a proposito do Euzebio Macario, historia natural e social d'uma familia no tempo dos Cabraes.
Na dedicatoria declarava Camillo o intento que o demovera a escrever essa novella humoristica: «Perguntaste-me um dia se um velho escriptor de antigas novellas poderia escrever, segundo os processos novos, um romance com todos os tics do estylo realista. Respondi temerariamente que sim.»
O Euzebio Macario foi a justificação d'esta affirmativa, d'este compromisso espontaneamente tomado.
Camillo, o inexcedivel romantico do Amor de perdição, provou o seu pulso de escriptor realista no Euzebio Macario e, depois, na Corja. Evidenciou, com uma superioridade indiscutivel, que, na esphera da litteratura, não havia para elle barreiras que lhe tolhessem o impeto, processos que lhe desnervassem o braço.{182}
Alexandre da Conceição que principiara, como todos os litteratos do seu tempo, por ser romantico, evolutira em philosophia para o positivismo, e em litteratura para o realismo.[16] Exagerou o seu enthusiasmo, fazendo-se talvez mais papista do que o papa da sua nova escola. Não viu deante de si o homem eminente que se chamava Camillo Castello Branco. Cuidou ver apenas no Euzebio Macario a pretensão de lançar o ridiculo sobre a escola realista.
D'aqui nasceu a polemica, que a breve trecho se transviou em aggressões pessoaes. As demasias de Camillo tinham uma natural explicação no facto de ser reptado violentamente; as de Alexandre da Conceição provinham do afôgo com que elle abraçava os processos litterarios da escola realista.
O choque foi notavelmente aguerrido, medonho. De parte a parte não houve trepidação que esfriasse o ardor do primeiro momento. Camillo era um polemista insigne. Mas Alexandre da Conceição, descontados os excessos que visavam a melindrar pessoalmente Camillo, aguentou-se rijamente no combate.