«De mais a mais não sou de uns certos, que tudo pesam e scismam antes de se proporem a sair da sua{186} terra, e até cuidam que o barco se ha de perder, simplesmente pelo facto de os levar; eu, ao contrario, cuido que por eu ir n'elle é que o barco não se perderá. Muito pouco merecem, pois, a Deus, os medrosos que assim se temem d'elle.»[17]
«Viajo com enthusiasmo, com esperança, com uma ineffavel felicidade; nem entendo que se possa viajar para passar o tempo; passar o tempo, é morrer!»[18]
«Tudo é grande agora, bem se sabe, lettras, artes, politica, e coisas; deixem, todavia, que um fiel, que sempre foi dado á alegria e á sensibilidade, venha recitar, a meia voz, as suas oraçõesinhas, perante o altar da anecdota!»[19]
Estas ultimas palavras foram escriptas em maio de 1888. Dois annos depois, contados quasi dia a dia, Julio Cesar Machado acabava tragicamente, mais tragicamente ainda do que o seu mestre e amigo Lopes de Mendonça, porque a exaltação doentia do seu espirito não nos deu o tempo preciso para que nos habituassemos a esperar a catastrophe final.
O filho que elle adorava até ao fanatismo succumbira a uma allucinação de momento, e desde esse dia toda a felicidade de Julio Cesar principiou a desmoronar-se, como um talude do qual, em se despegando um punhado de terra, nada fica de pé dentro de poucas horas.
Todos nós nos lembramos do Julio passeando com o filho pela mão, muito ufano d'essa creança de calção e blusa, a quem falava curvando-se, a quem sorria escutando-a.
Uma palavra de saudação amavel dita a esse rapazinho, desempenado e de feições miudas, valia mais para Julio Cesar do que o referirmo-nos com louvor ao seu livro mais querido, Os contos ao luar.{187}
—Ó Julio, o teu prologo dos Contos leio-o ás vezes para me sentir tão moço como ha vinte annos. «... E depois, eu não sei bem por que chamei ao meu livro Contos ao luar!» Bonito, como eram então as coisas bonitas!
—Pois sim... Mas olha que este rapaz não é peor do que o livro... respondia-me elle uma vez.
E eu comprehendi-o, porque tambem tenho filhos...