Um dia, n'um jantar em casa de Baptista Podestá, o pequeno Julio levantou-se da mesa, e foi engalfinhar-se nas costas de um amigo do pae, que o recebeu amavelmente. D'ahi a momentos, o pequeno correu a trepar pela cadeira de outro amigo de Julio Cesar, que o reprehendeu. Não tardou que o pae, com as lagrimas nos olhos, saisse com o filho, depois de haver apertado a mão, muito expressivamente, ao amigo que tinha afagado o Julito, e interrompendo desde essa hora as suas relações com o outro amigo que o reprehendera.

Este immenso amor pelo filho estremecido foi que o allucinou, que o perdeu;—basta por si mesmo a explicar a contradicção que em Janeiro de 1890 resaltou entre a morte e a vida de Julio Cesar Machado.

Eu devo á memoria d'este homem a gratidão que nos impelle para todo aquelle que nos sorriu na hora em que tentavamos uma empresa arriscada.

Foi no livro Manhãs e noites que elle saudou com excessivo favor os meus primeiros trabalhos litterarios, as Peregrinações na aldea e o romancesito Idyllios á beira d'agua. Não me conhecia pessoalmente, elle vivia em Lisboa, eu estava no Porto, apenas haviamos trocado algumas cartas.

Só em 1873, annos depois, nos avistamos em Lisboa, onde eu, recemchegado, sondava hesitantemente o meu destino.

Fiz então, sobre o joelho, nos primeiros dias da minha installação, um livro que me haviam comprado no Porto: Photographias de Lisboa.{188}

Reproduzo uma pagina d'esse livro:

«Na casa de Julio, na sua modesta casa da travessa do Moreira, está o escriptor: tudo simples, alegre, baralhado e artistico. Quadros, retratos, livros, jornaes, flores, estatuetas, bengalas, charutos, um labirintho em que todavia ninguem chega a perder-se... sendo homem. Eu explico a phrase, que póde parecer descomposta. É que as mulheres, por naturalmente timidas, facilmente se confundiriam no cahotico atelier do Julio.

«Uma das muitas curiosidades, que denunciam o escriptor no ménage, é um valioso album em que a par dos authographos figuram os retratos das maiores notabilidades europeas. Lá estão, reproduzidos d'um lado pela photographia, do outro pelo proprio estilo, Lamartine, Victor Hugo, Vacquerie, Gautier, Auber, Janin, Herculano, Garrett, Rodrigo da Fonseca Magalhães, Castilho, Camillo, etc., as nossas glorias e as estranhas.

«A proposito dos escriptores francezes do album, falamos, á segunda vez que nos viamos, de litteratura franceza. Não sei qual de nós passou dos talentos masculinos da França para os femininos. Provavelmente foi o Julio. O que é certo é que occorrendo-me o nome de Sophia Gay, mãe de Delphina Gay, depois madame de Girardin, lamentei não haver encontrado o seu nomeado livro Physiologie du ridicule. É effectivamente raro este livro, cuja primeira edição data de 1833.