[19] Do livro, o seu ultimo livro, Mil e uma historias.
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XXIV
João de Andrade Corvo
Ainda outro dia eu estive reunindo, n'um só lote da minha modesta bibliotheca, todos os livros de Julio Cesar Machado, arrolando o espolio litterario d'esse morto querido, destinando-lhe um logar de honra no futuro pantheon dos meus auctores predilectos.
Ainda foi outro dia!...
De cada lado me surgia um livro seu, e assim, com algum tempo de trabalho, pude reunir n'um só logar todos os seus volumes, incluindo os dois da Vida em Lisboa, que vão sendo muito raros no mercado.
É que eu gosto de trabalhar n'uma certa desordem, em que perfeitamente me oriento. Acho fria, monotona a arrumação sistematica por auctores, dispostos em fila, como se se tratasse de uma batalha. Alegra-me a distribuição caprichosa de escolas e escriptores, essa grande confusion tumultuaria em que Voltaire dá o braço a Chateaubriand, em que Rénan se encontra vizinho do padre Manuel Bernardes, e em que Bossuet vive paredes meias com Augusto Comte.
Apraz-me ter que pensar no meio d'esse permanente{191} cancan dos espiritos, que volteiam em torno da minha banca de trabalho, uns graves como espectros, outros folgazãos como collegiaes; estes sorrindo desdenhosamente scepticos, aquelles crendo fervorosamente como apostolos.