Mas quando Julio Cesar Machado morreu, quiz votar-lhe uma especie de culto privativo—o culto da saudade—e dei-lhe um logar reservado n'um só lote da minha estante. Dispondo ordenadamente os seus livros, folheei-os rapidamente, evoquei gratas recordações de antiga leitura, e muitas vezes encontrei citado entre as paginas, que ligeiramente passavam por deante dos meus olhos, o nome do sr. Andrade Corvo.

Hoje alargo as dimensões do compartimento em que Julio Machado era inquilino unico, e ponho, tambem ordenadamente, ao lado das suas obras, as do sr. Andrade Corvo, porque esses dois espiritos, postoque diversamente orientados, sempre se comprehenderam e estimaram, e estimando-se e comprehendendo-se continuarão conversando um com o outro no mesmo lote da minha estante.

Durante a vida do sr. Andrade Corvo, muitas vezes tive de escrever a seu respeito. No folhetim semanal do Economista apreciei eu dois volumes dos seus Contos em viagem, e não sei se foi n'essa occasião, ou em qualquer outra, que eu, fazendo o elogio do sr. Corvo como romancista historico, declarei francamente antepôr o seu Um anno na côrte á tão preconisada Mocidade de D. João V, de Rebello da Silva.

Não quer isto dizer, por modo algum, que eu não reconheça em Rebello da Silva superiores qualidades de estilista; mas como romancista historico acho que o sr. Corvo o excedeu na urdidura do romance, no estudo da época, e na fidelidade dos caracteres.

A obra do sr. Corvo não se limitou, porém, ao romance. Elle foi dramaturgo, jornalista, poeta, estadista e academico.{192}

Em todas estas espheras de acção firmou creditos inabalaveis de homem eminente. Como escriptor nunca lhe ouvi notar senão um defeito: não ter orthographia. Mas a orthographia é como a belleza: nem toda a gente tem a mesma opinião a respeito de uma e outra. Quanto á orthographia do sr. Corvo, é provavel que o sr. Latino, que prefere a etimologica, a achasse má; mas é tambem provavel que o sr. Barbosa Leão, que apostolava a sonica, a achasse boa.

Corvo viajou por todas as regiões da sciencia, não com bilhete de ida e volta, como quem vae passar dois dias santos fóra da terra, mas como esses pacientes caminheiros que fazem a sua Jornada de Misericordia em Misericordia.

Formou-se não sei quantas vezes, não por necessidade, mas por divertimento. A sua grande distracção era estudar, saber.

E aqui vem a proposito o que a seu respeito escreveu Julio Cesar Machado no Claudio:

«Harcourt tinha todo o charlatanismo de talento com que se maravilham os leitores faceis. Citou muitos auctores, referiu-se a muitas obras, metteu trechos de todas as linguas, uns bocados em latim, outros em allemão, dois em grego. O Martinho exultou. O homem novo ia matar tudo.