III
Alexandre Herculano
Ainda vim a tempo de conhecer pessoalmente o mais notavel historiador portuguez do nosso seculo. Avistei-me com Alexandre Herculano em 1874, e d'essa entrevista deixei memoria no livro que se intitula O capote do sr. Braz. Quando o eminente escriptor morreu, tentei traçar o seu perfil litterario n'outro livro, que então publiquei, O Porto por fóra e por dentro.
Hoje, porém, desejo apenas procurar na colossal individualidade de Herculano um outro aspecto, que aliás tem sido pouco explorado: a sua ephemera vida politica. Mas quer-me parecer que esta pagina, que acrescento agora á biographia do grande historiador, poderá conter elementos não de todo inuteis para quem houver de escrever um dia, definitivamente, a monographia completa da sua brilhante existencia.
Alexandre Herculano padecera as contrariedades da guerra civil, emigrára na onda dos liberaes que fugiram ao triangulo do patibulo, e voltára com D. Pedro a Portugal.{24}
Os seus talentos poderiam ter-lhe dado direito a ser um dos primeiros homens politicos do constitucionalismo, se não fossem naturalmente subjugados por uma organisação de poeta, com todas as qualidades e os defeitos que os homens assim talhados moralmente costumam exhibir no forum, no parlamento ou nos conselhos da corôa, quando não têem, como Herculano teve, a coragem de abandonar a carreira publica, que a cada passo os contraria e azéda.
Em verdade, elle nunca deixou, nem mesmo durante a sua ephemera vida politica, de ser um poeta, no sentido elevado d'esta palavra, um poeta cujos naturaes caprichos tornavam o seu espirito pouco malleavel ás conveniencias partidarias, ás manobras do parlamento e ás intrigas de gabinete.
Elle proprio o confessa quando diz: «Entre os soldados de D. Pedro havia poetas: militava comnosco o auctor de D. Branca, do Camões, de João Minino; o sr. Lopes de Lima, e outros: mas a politica engodou todos os ingenhos e levou-os comsigo. Os homens de bronze, os sete mil do Mindello, não tiveram um cantor: e apenas eu, o mais obscuro de todos, salvei em minha humilde prosa, uma diminuta porção de tanta riqueza poetica.»
A Voz do propheta, um dos seus mais notaveis escriptos politicos, não é senão um grito lancinante de poeta contra a revolução de 1836; a colera sublime de um poeta da Carta, deixem-me dizer assim; de um coração delicado que via ligada á memoria da Carta a recordação dos seus melhores dias de soffrimento, de lucta e de esperança.
«A carta, escrevia elle em 1867, fôra como a estrella polar da esperança nos dias, tão longos, da fome, da nudez, das tempestades, do desalento. Vivia depois como envolta na saudade d'esses dias, acre e quasi dolorosa saudade, que nós os velhos ainda sentimos, mas que será provavelmente uma cousa inintelligivel para as gerações novas.{25}