Alexandre Herculano, em vez de se collocar no ponto de vista exclusivamente politico dos homens que procuravam assaltar o poder, fazendo a revolução ou defendendo a Carta, d'esses homens que accentuavam agora em Portugal as rivalidades pessoaes que tinham principiado a separal-os na emigração, collocava-se no ponto de vista desambicioso e romantico do homem que sustenta uma causa pelo estimulo sincero da sua propria convicção e da sua propria fé n'essa causa.

Os politicos que o rodeavam conheceram facilmente, façamos-lhe essa justiça, que estava ali um litterato eminente, um espirito superior, mas que aquelle homem não fazia sombra a ninguem como politico.

Não tinha coração, nem consciencia, nem caracter para isso. Era um teimoso honrado, um pensador insubmisso. E se Alexandre Herculano entrou em 1840 no parlamento foi o homem de lettras que levou pela mão o deputado.

Ao passo que Garrett, um artista mundano, um politico amavel de salão, escrevia cartas sobre cartas para o Porto, a José Gomes Monteiro, que nada valia como politico, pedindo-lhe que promovesse a sua eleição por aquella cidade, berço de ambos, Alexandre Herculano lisonjeava-se em pleno parlamento, logo que ali entrou, de que não fizera um pedido, de que não escrevera uma carta para obter o diploma de deputado.

Se elle tivesse o instincto politico dos outros seus companheiros de emigração, poria o fito em escalar o parlamento, fosse como fosse. O caso era entrar, para chegar. Mas ao passo que Garrett comprehendia isso, Herculano não o comprehendia assim. Por isso Garrett chegou a ministro, e Herculano abandonou a vida politica.

Eleito deputado pelo Porto, para a legislatura que principiou a 26 de maio de 1840, Alexandre Herculano usou pela primeira vez da palavra, na discussão da resposta ao discurso da corôa, em sessão de 6 de julho.{26}

O sr. Alexandre Herculano—Sr. presidente, erguendo-me para dar a minha opinião sobre as graves questões que se têem ventilado n'esta camara, eu, deputado até aqui silencioso, vejo-me finalmente no estreito passo que sempre temi antes de me assentar n'uma d'estas cadeiras, para obter a qual ninguem ousará dizer que eu gastasse uma rogativa, uma carta, ou uma palavra; n'uma d'estas cadeiras, que tantos ambicionam, sem se lembrarem de que ellas se convertem muitas vezes em instrumento de martyrio, se não as queremos tornar recordação de remorsos, que nos acompanhe por todo o resto da vida.

«É esta terrivel escolha, a escolha entre os affectos do coração, e as convicções do entendimento, que me cumpria fazer hoje, tendo de censurar o ministerio, no qual ha um homem a quem devo grandes obrigações, e mais que obrigações; antiga amisade. Se alguns serviços eu fizer n'esta camara á minha patria, que ella não m'o agradeça; mas agradeça-me o sacrificio que hoje lhe faço do mais santo dos affectos humanos, a boa e leal amisade. (Grande attenção).

«Da exposição do illustre deputado o sr. J. A. de Magalhães, vi eu (e ainda vejo, porque as razões dos srs. ministros que já fallaram, me não satisfizeram) que o governo tem deixado peiorar a situação das nossas relações estrangeiras. Procederia isto de inhabilidade do ministro ultimamente encarregado d'este ramo de administração? Esqueceria elle o bem do paiz para só curar que das mãos lhe não cahisse esse pomo do bem e do mal, tão tentador, e formoso, chamado a pasta de um ministerio? Será culpa d'um ou de todos? Não o sei; o que m'importa é o facto para o haver de censurar como devo: visto que os meus constituintes me mandaram para este logar.

«Mas esta censura não cahe só sobre o ministerio actual: cahe tambem sobre o que o precedeu; porque se no tempo d'aquelle houve descuido (ao que parece){27} sobre muitos e importantes negocios, antes o tinha havido tambem sobre um, egualmente qualificado e gravissimo.