«E recordo-me hoje do que ha muito é passado, porque sobre os homens da minha crença politica se lançaram crueis accusações de falta de patriotismo; porque eu vi publicadas as candidaturas cartistas nos jornaes que advogam a causa da revolução permanente, asselladas com o ferrete de lista ingleza.»

Muitas passagens d'este discurso foram vivamente applaudidas.

Citaremos as seguintes:

«Nem os homens da revolução quizeram vender Portugal á França; nem o partido cartista o quiz vender á Inglaterra; nem nenhum ministerio passado, presente, ou futuro, o vendeu ou o venderá a ninguem. (Vivissimos apoiados).

«E se ahi houvesse quem o ousasse, a Nação se ergueria como um só homem, e esmagaria os infames que atraiçoassem a terra da sua infancia; que chamassem os estrangeiros a calcarem como senhores as glebas que cobrem as cinzas dos nossos paes! (Muitos apoiados).

«Depois nós iriamos afiar as armas nas campas dos valentes d'Aljubarrota; e pelejariamos até o ultimo de nós cahir moribundo pela independencia nacional!

«Sr. presidente, n'estas cadeiras; n'aquellas; e em ess'outras sentam-se homens, que juntos combateram nas linhas do Porto; juntos velaram noites longas e dolorosas; juntos viveram dias de fome e de sangue, juntos olharam para um futuro tenebroso, e muitas vezes desacompanhado de esperança, sem que nunca se vissem uns aos outros enfiar ou tremer; sem que nunca imaginassem, que houvesse entre elles quem vendesse os seus companheiros d'armas. Como é possivel que{28} hoje irmãos reneguem da confiança em seus irmãos? Penhor do procedimento presente seja o procedimento passado. Qual de nós pertenceria a um partido que não tivesse por bandeira—independencia e liberdade?» (Vozes: Muito bem, muito bem).

Este discurso de estreia revela o homem de lettras depaysé no parlamento. É um academico que fala, encadernando em bons periodos litterarios uma alma delicada de poeta, que sinceramente presta culto á terra em que nasceu e á amizade que o liga a um dos ministros. Nada faz suppôr n'este discurso que esteja ali o argumentador capcioso e sophista que haja de entrar em todos os debates da politica apaixonada, em todos os incidentes facciosos e obstruccionistas, o rabula, o furão da politica.

Rodrigo da Fonseca Magalhães, a raposa astuta, conhecia bem Herculano, sabia por onde havia de dirigir-se para lisonjear o homem de lettras. Por isso comparou-o a Lamartine, um grande escriptor, tambem poeta da politica, e falou ao coração de Herculano a linguagem affectuosa da amizade. Procurou rendel-o tocando todas as fibras mais sensiveis e impressionaveis da organisação de um homem de lettras que tinha, sob um feitio ás vezes aspero, um coração de ouro.

Foi pois o ministro do reino que se levantou para responder por parte do governo.