«Alexandre Herculano de Carvalho, socio effectivo da Academia Real das Sciencias, antigo deputado da nação portugueza. Eu El-rei vos envio muito saudar. Tomando em consideração os vossos merecimentos e qualidades, hei por bem, tendo ouvido o conselho d'Estado, nomear-vos par do reino, o que me pareceu participar-vos para vossa intelligencia e effeitos devidos. Escripta no Paço das Necessidades em 17 de maio de 1861.—Rei.—Marquez de Loulé.—Para Alexandre Herculano de Carvalho, socio effectivo da Academia Real das Sciencias, antigo deputado da nação portugueza.»

Alexandre Herculano recusou, talvez ainda porque essa mercê tinha resaibos de iguaria politica, para apreciar{36} a qual o seu paladar estava desde muito tempo embotado.

Habituara-se a depreciar as galas que podem ensanefar, como elle dizia, o pedestal dos homens politicos. Fizera-se lavrador, quasi misanthropo. A sua prosa tinha por vezes, quando de longe a longe escrevia, tons duros de mau humor para com a sociedade.

Recusou a mercê regia.

Temos fortes razões para crêr que o requerimento em que renunciou o pariato fomos nós arrancal-o pela primeira vez ao archivo do ministerio do reino.

Diz assim:

«Ill.mo e Ex.mo Sr.

«Sua Magestade El-Rei, usando das attribuições do poder moderador, Houve por bem honrar-me com a nomeação de membro da Camara dos Dignos Pares do Reino. Será ocioso significar a v. ex.ª quanto aprecio esta demonstração de confianca d'um Soberano, que a historia póde qualificar como a mais nobre e pura intelligencia que tem resplandecido no throno portuguez, e que sabe ainda mais obrigar á affeição como homem do que ao respeito como magistrado supremo.

Mas as condições da humanidade alcançam reis e subditos: reis e subditos estão sujeitos a fazer apreciações inexactas ou incompletas. Podem illudir-se ás vezes tomando os impulsos da benevolencia pelas inspirações da justiça e é possivel que em relação a mim se désse uma circumstancia d'essas.

Désse ou não désse, o que sei, o que me diz a consciencia com voz sobradamente intelligivel é que o meu concurso nas deliberações da camara dos Dignos Pares do Reino seria inutil, quando não inconveniente. Dispense-me v. ex.ª de expôr as razões d'esta intima e invencivel persuasão, razões tristes para mim, e porventura demasiado longas e tediosas para v. ex.ª