Recolhendo a Portugal, e á terra da sua naturalidade—o Porto—Gomes Monteiro dedicou a maior parte do tempo á investigação e preparação dos materiaes necessarios para a historia litteraria. A morosidade com que na Allemanha se educára a trabalhar pela applicação do criterio historico, a natural indolencia do seu temperamento, e largas interrupções devidas a melindres de saude fizeram, porém, que a obra proseguisse lentamente, e os seus manuscriptos ficassem por sua morte desatados apenas em memorias preciosas, sem a unidade logica e chronologica de um corpo de historia.
Portanto, d'essa importantissima tarefa sómente ha pequenas amostras publicadas, e a origem da publicação deve procurar-se sempre nas instancias de amigos e na amavel insistencia de alguns admiradores. Foi assim que em 1849 appareceu em opusculo a Carta ao ill.mo sr. Thomaz Norton sobre a situação da ilha de Venus, e em defeza de Camões contra uma arguição, que na sua obra intitulada «Cosmos», lhe faz o sr. Alexandre de Humbold.
N'este trabalho, em que os elementos da these são{45} procurados com notavel paciencia e lucidissima intuição, José Gomes Monteiro sustentou que a ilha dos Amores não era a de Santa Helena, como alguns opinavam, nem a de Anchediva, como escrevera Faria e Sousa, nem fingimento que o poeta fez, como dissera Manuel Corrêa, mas a de Zanzibar, ao norte de Moçambique. José Gomes Monteiro baseou em grande parte a sua argumentação na concordancia das descripções do episodio com as particularidades do clima, da fauna, da flora, da situação geographica da ilha de Zanzibar. Não será decerto um trabalho incontestavel,[3] mas é seguramente notabilissimo, e como prova de um espirito sério, predisposto para tarefas d'esta natureza, foi respeitosamente recebido por todo o paiz.
A esse tempo ainda José Gomes Monteiro estava na firme resolução de trabalhar na realisação da historia litteraria de Portugal. Com effeito, como a carta a Thomaz Norton revelava, elle poderia ter sido para a litteratura portugueza o que Ticknor foi para a hespanhola, Hipp. Taine para a ingleza, Emilio Burnouf para a grega, etc. Mas, depois, o gravame dos annos foi crescendo, e com elle o desanimo, que os aggravos litterarios fizeram descair em aborrecimento. Era preciso, como já dissemos, que a amizade o reptasse com dedicado empenho, para que emittisse a sua opinião sobre importantes assumptos de historia litteraria. De uma d'essas pressões amigaveis resultou a publicação do artigo que a Revista Peninsular[4] inseriu ácerca da antiga trova do Figueiral Figueiredo, que José Gomes Monteiro suppunha filiada na lenda gallega de Val-Doncel.{46}
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Na carta a Thomaz Norton escrevêra José Gomes Monteiro em nota á pag. 17:
«Aproveitarei esta occasião para dizer... que um dos mais famosos monumentos d'esta litteratura cavalheiresca, e que tão distincto logar deverá ter na historia litteraria do nosso paiz,—o Amadis de Gaula—é de todos os romances de cavallaria o mais notavel pelos elementos historicos de que se compõe. Impenetravel até hoje á investigação de grandes criticos, tem sido considerado como uma singular excepção ao systema de decomposição historica. Eu mostrarei comtudo, em um trabalho que tenciono publicar brevemente, que o seu maravilhoso, os seus personagens, os seus episodios, tudo ali é urdido no grande tear da historia—da historia do seculo XII, o mais rico em aventuras e feitos d'armas da cavallaria real, de quantos contém os annaes da edade-media. Ali, dissolvendo as tabulas do Amadis em factos historicos, darei a mais completa theoria, que ainda appareceu, do modo de inventar dos trovadores da meia-edade. O maravilhoso episodio de Endriago, a mais bella concepção de todos os romances de cavallaria, ficará sendo um exemplo inapreciavel de como o espirito humano fórma o mytho, nas edades primitivas da litteratura.»
Gomes Monteiro foi levado á realisação d'este trabalho, que deixou inedito, pela applicação do mesmo processo que tinha seguido a respeito da ilha de Venus—o confronto do romance com a historia. Só por um pacientissimo labor poderia encontrar no grande oceano da historia universal justamente a época cujos factos capitaes correspondessem aos episodios do romance. Procurou e achou. Dissolvendo as fabulas do «AMADIS» em factos historicos, como elle proprio escreveu, pôde localisar a acção do romance no tempo de{47} Ricardo Coração de Leão, enxergando no disfarce da allusão, motivado pelas exigencias da época, uma perfeita concordancia historica, e logrou chegar á conclusão de que Vasco de Lobeira não foi o auctor d'essa famosa novella do ciclo cavalheiresco.
Outro dos seus importantes trabalhos ineditos era uma edição critica da Menina e moça de Bernardim Ribeiro, da qual seriam expungidas as intercalações apocriphas que andam no livro. Calcule-se o dispendio de paciencia e perseverança que essa reconstrucção custaria ao douto bibliophilo. Como na edição de Gil Vicente, um estudo biographico sobre Bernardim Ribeiro e um glossario dos vocabulos antigos completariam a edição critica da Menina e moça.
A vida de Sá de Miranda fôra por José Gomes Monteiro laboriosamente investigada, alcançando extrair das proprias composições do poeta illações luminosas e não esperadas. A este respeito, permitta-se-me dizer que por indicação sua introduzi Sá de Miranda no romance Um conflicto na côrte, baseando-me nos documentos que espontaneamente me facultou, e que claramente revelavam a intervenção do poeta na dramatica paixão do marquez de Torres Novas por D. Guiomar Coutinho. Foi nas eclogas Aleixo e Andrés que José Gomes Monteiro encontrou a prova d'essa intervenção, de que resultou ser preso Sá de Miranda como punição ás ousadas allusões que, para desaffrontar o marquez, fizera á perfida dama. Apraz-me renovar esta declaração que já fiz no segundo volume do romance. A minha divida para com a memoria de Gomes Monteiro é tamanha, que não posso desaproveitar qualquer ensejo de relembral-a.