Além d'estes manuscriptos, outros muitos, e variadissimos, enchiam as suas pastas. Lembro-me agora de um extenso artigo a respeito da Arte de monteria, de D. João I, e de uma infinidade de apontamentos sobre varias especies, entre os quaes folheei em 1877 todos{48} os que podiam servir á elaboração de uma interessante monographia da cidade do Porto.

Mas, já transviados da rigorosa ordem chronologica, temos que retroceder na biographia de Gomes Monteiro, para completarmos a pequena lista das suas obras impressas.

Um anno antes da publicação da carta sobre a ilha de Venus, isto é, em 1848, deu José Gomes Monteiro em volume a traducção de algumas baladas dos poetas mais populares da Allemanha, sob o titulo de Eccos da lyra teutonica.

Este livro está completamente fóra do grande programma dos seus estudos predilectos, e dos seus trabalhos habituaes. São recordações da sua vida na Allemanha, enfeixadas por um viajante erudito, que perfeitamente conhecia as duas linguas, e que, sem ser propriamente um poeta, mostrava que os processos de metrificação lhe eram conhecidos, se bem que em muitos relanços sacrificasse a correcção metrica, a elegancia da fórma, á fidelidade da traducção. Procedendo assim, obedecia simplesmente aos seus escrupulos de investigador litterario. Queria dar a conhecer ao nosso paiz a poesia moderna da Allemanha, respeitando comtudo a exactidão dos textos, como quem perfeitamente conhecia o justo valor das palavras, e por elle fazia obra. A sua lealdade de traductor póde ser confirmada por todos quantos saibam allemão, porque em muitas das poesias a traducção vem a par do original.

Em 1873, José Gomes Monteiro saiu a vingar a velhice de Castilho—desaffrontando-a de accusações que lhe foram feitas—com a publicação do livro Os criticos do Fausto do sr. visconde de Castilho. Estava já a esse tempo no plano inclinado por onde a velhice enferma resvala á sepultura. Não obstante, cobrou forças para escrever rapidamente um livro de 190 paginas, que Camillo Castello Branco e eu vimos nascer quasi dia a dia. Não me admirei do esforço, e a mim proprio o explicava,{49} sempre que na redacção do Primeiro de Janeiro recebia um bilhetinho de Gomes Monteiro concebido n'estes termos: «Ámanhã, a tal hora, em casa do Camillo». José Gomes Monteiro, replicando com auctoridade ao azedume com que os criticos de Castilho cairam sobre a traducção do Fausto, lavrava um protesto energico em nome da velhice desconsiderada, e desabafava, n'uma dolorosa fadiga para a sua penna, as maguas intimas que as ingratidões de que a vida das lettras está eriçada tinham posto no seu coração. Esse livro era o seu testamento litterario, resalta d'elle a indignação da senectude desgostosa, que sente fugir-lhe de um lado, roubado pela morte, o apoio dos seus pares, e do outro o respeito da gente moça. N'este caso a velhice morre como os dois Carvajal, que emprazaram Fernando IV a comparecer no tribunal de Deus; a velhice empraza a mocidade irreflectida a comparecer no tribunal da Historia. «Não ha espectaculo mais repugnante do que o d'um mancebo insultando um ancião benemerito, dizia elle na penultima pagina. É um parricidio moral de que todo o homem honesto affasta a vista com horror.» A sua alma precisava d'este desafogo—a tão pequena distancia da sepultura. Alexandre Herculano, movido por igual impulso, escrevia, do fundo da solidão de Val-de-Lobos, uma carta de congratulação a José Gomes Monteiro a proposito da publicação dos Criticos do Fausto. Essa carta, era breve, mas profundamente energica. Nunca as mãos lhe doiam, dizia o auctor da Historia de Portugal áquelle que muitas pessoas denominavam o Alexandre Herculano do Porto.

Depois de um tão aguerrido desabafo, a sua alma ficou tranquilla mas fatigada. Nunca mais, dizia-me elle, nunca mais escreverei. Vivendo unicamente de recordações, parecia esperar serenamente a noite misteriosa da morte...

Mas, um dia, foram evocar-lhe uma das mais doces,{50} das mais gratas recordações da sua vida. O sr. Emilio Biel, do Porto, appellando para os seus antigos estudos sobre Camões, convidára-o a rever a edição dos Lusiadas, que foi publicada n'aquella cidade por occasião do terceiro centenario da morte do grande epico. A este nome prestigioso, a alma de José Gomes Monteiro teve ainda um relampago de vida. Rodeando-se pela sua preciosa camoneana, pondo diante de si as suas excellentes notas sobre a vida e a obra de Camões, José Gomes Monteiro pretendeu encerrar a sua carreira d'escriptor honrando a memoria do maior poeta que tem tido Portugal. Esse trabalho é perfeito. É o ultimo raio de luz do seu espirito, estrella cadente que sulcando a noite da velhice foi abismar-se na sepultura já aberta para receber o douto bibliophilo.

A 12 de junho de 1879, José Gomes Monteiro adormecia na traquillidade dos mortos.

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Ligado por antigos laços d'amizade, atados no exilio, a todos os homens importantes de Portugal, elle poderia ter-se saciado de honras, se fôra um espirito vulgar. Mas até n'isso pensava com o seu Camões. Distincções litterarias tinha apenas aquellas que o procuraram: era socio correspondente da Academia Real das Sciencias de Lisboa e membro de varias academias estrangeiras. O seu nome apparecia pouco, occultava-se como elle proprio, e todavia, outros muitos que ajudára a crear com o seu conselho, com os seus livros, com a sua protecção passavam por diante d'elle, na pompa do triumpho, sem que o menor assomo de inveja viesse perturbar-lhe a habitual serenidade de animo.