Onde estava bem, onde se sentia viver, era no meio da sua vasta livraria. Tinha razão. As livrarias são cidades de mortos, onde os livros falam como os tumulos. A paz creadora, a meditação tranquilla, o descanso{51} productivo, estão ali. Os outros amigos vão rareando dizimados pela morte os contaminados pela ingratidão; mas os livros, amigos inalteraveis, não faltam nem atraiçoam. Na saude ou na doença, no trabalho ou no ocio, fortes na sua immobilidade, grandes no seu silencio, são sempre uma companhia, uma guarda, uma força. O velho Castilho tinha o seu leito entre elles. Não os via, mas sentia-os. Não tinha olhos para os procurar, mas conhecia-os pelo tacto. Muitas vezes me pareceu que elles lhe diziam quando os buscava: «Procuras-me? Aqui estou. Como não vês; ajudo-te.» Entre elles morreu. O seu cadaver depositado na livraria parecia escutar, na concentração placida dos cegos, o que Virgilio estava dizendo e Anacreonte cantando no silencio eterno dos livros.

A bibliotheca de Gomes Monteiro era uma necrópole immensa. A antiguidade tinha ali, fechados em pergaminho, os seus thesouros classicos. A renascença enfileirava os seus volumes em linha de batalha. A um lado, a Grecia antiga cantava os seus heroes; a outro lado, Roma, a Grecia italiana, pendurava as suas liras coroadas de mirtho e louro. Os paizes do norte da Europa combatiam com o ardor dos seus poetas os gelos dos seus climas. O occidente punha os seus trovadores a par dos seus cavalleiros. A central Allemanha entoava as suas baladas vaporosas como o véu azul do seu Rheno. Finalmente, a Asia depositava n'um berço de luz os seus velhos poemas guerreiros e divinos, os seus codigos religiosos e austeros.

—Aqui ha tudo! dizia muitas vezes José Gomes Monteiro com certa alegria lisonjeada, a todos quantos lhe perguntavam se possuia este ou aquelle livro.

Bibliophilo por vocação, ele tinha o grande defeito dos bibliophilos: a avareza. Os seus livros pareciam-se n'isto com as flores, que pertencem principalmente a quem as possue, sem que por isso o seu perfume deixe de ser aspirado pelos estranhos.

[1] Pag. 236.

[2] Diccionario bibliographico portuguez, vol. 4.º, pag. 363.

[3] O sr. conde de Ficalho contradictou na Flora dos Lusiadas, em 1880, sob o ponto de vista botanico, a asserção de Gomes Monteiro, mas honra-o dizendo que a sua carta contém, na parte exclusivamente litteraria, apreciações justas e novas.

[4] Vol. 2.º, pag. 401.


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