Pois bem, soccorrer-me-hei a uma citação do sr. Pinheiro Chagas a respeito de um dos actos mais importantes da vida do marquez de Pombal.
Refiro-me ao processo dos conspiradores ou suppostos conspiradores contra D. José I.
A este respeito citarei a v. ex.ª e á camara duas auctoridades, ambas contemporaneas, para provar a minha asserção de que as responsabilidades politicas do marquez de Pombal não me parecem inteiramente liquidadas ainda.
Diz algures o sr. Teixeira de Vasconcellos:
«Nos dominios severos da historia ainda não passou em julgado nem a sentença que condemnou a perpetua infamia o nome dos Tavoras, nem a que depois pretendeu lavar de qualquer mancha a memoria de tão numerosa e esclarecida familia. Não nos cabe apreciar a sanguinolenta catastrophe de Janeiro de 1759. Basta-nos recordar que as duas filhas do marquez de Alorna, uma de oito e outra de sete annos, padeceram innocentes longo e triste captiveiro, attenuado unicamente{56} pela consolação de viverem com a mãe, mitigando-lhe as amarguras da sorte, e recebendo com os carinhos e desvelos a educação maternal.»
Não citarei só a opinião do sr. Teixeira de Vasconcellos, cuja perda todos lastimamos, e eu mais que ninguem; citarei tambem a propria opinião do sr. Pinheiro Chagas, que sinto não ver presente, e que tão enthusiasta se tem mostrado por esta festa, que qualifica de nacional.
«Temos agora a notar que morreram innocentes, ou, pelo menos, que não deviam ser condemnados, pois que havia falta absoluta de provas, alguns dos desgraçados de Belem. Parece-nos isso incontestavel, mas não sabemos se devemos attribuir todas as culpas a Carvalho. Pesa ainda um grande mysterio n'esse periodo da nossa historia, e nenhum dos escriptores que d'elle se occuparam, trouxe a lume todos os documentos que podessem lançar luz n'este drama tenebroso.»
Depois da citação d'estes periodos, arrancados á Historia de Portugal, do sr. Pinheiro Chagas, e que por isso mesmo devem ser insuspeitos á camara, peço licença para referir um facto, que é um traço anecdotico da vida de Bocage, mas que me parece vir a proposito.
Bocage tinha sido recebido em casa de Thomé Barbosa de Figueiredo, que lhe dava a mais cordeal e franca hospitalidade, que lhe fazia offerecimentos de dinheiro, que lhe proporcionava, finalmente, todas as condições de bem-estar.
Thomé Barbosa de Figueiredo sentia-se muito honrado com a co-habitação de Bocage, e Bocage parecia ter chegado ao ideal da sua felicidade. Comtudo, uma bella manhã, Bocage bateu á porta do quarto do seu amigo, e disse-lhe que agradecia todos os obsequios que lhe havia proporcionado, mas que era obrigado a retirar-se.