—Por que? perguntou-lhe Figueiredo.{57}
—Por que conheço os seus defeitos e sinto uma invencivel necessidade de dizer mal d'elles, e de si.
A respeito de Sebastião José de Carvalho e Mello póde dizer-se a mesma cousa, porque todos aquelles que mais enthusiastas se revelam por elle, esses mesmos são obrigados a notar-lhe graves defeitos, e eu vou citar á camara ainda algumas palavras do meu illustre amigo, o sr. Pinheiro Chagas, nos seus Portuguezes illustres. Cito a obra, para tornar mais veridica a citação:
«Mas o patibulo de Belem, a alçada do Porto, a fogueira de Malagrida, o supplicio atroz de João Baptista Pelle, clamam alto contra o marquez de Pombal.»
Eis aqui a applicação da anecdota de Bocage. Ella explica, a meu ver, eloquentemente, o que se está passando n'este momento com relação ao marquez de Pombal.
Como a iniciativa do centenario partisse da mocidade academica, o governo viu por ventura, e principalmente, no marquez de Pombal, o reformador dos estudos, e propoz uma estatua em sua honra.
É certo, sr. presidente, que eu entendo que as estatuas devem ser para os legisladores, por isso que são frias, austeras como elles.
Para os grandes artistas, para os grandes pintores, para os grandes poetas, para os grandes oradores e para os generaes victoriosos cuido eu que devem ser as ruidosas ovações populares, as solemnes deificações publicas e augustas, os imponentes cortejos civicos, os arcos de triumpho, ondeantes de galhardetes inquietos, n'uma palavra, a monumental apotheose das ruas e das praças, como ha pouco teve Camões.
José Estevão, sr. presidente, está ainda muito mais vivo e completo nos seus discursos parlamentares, que remurmuram nos eccos saudosos d'esta casa, do que na estatua fria e severa que se levanta ali fóra, em frente d'este edificio, que elle glorificou com a sua palavra.{58}
Camões é muito maior nos Lusiadas do que na estatua do Loreto.