Páro por aqui para não abusar da paciencia da camara, e mesmo porque da continuação d'esta lista espero que algum dia se encarregarão os meus netos ou os seus filhos...

Sr. presidente, o sr. Pinheiro Chagas falou aqui do 24 de julho e disse que, se ha familias ainda maguadas pela memoria da administração do marquez de Pombal, tambem o 24 de julho é uma festa que entristece profundamente muitas familias portuguezas.

Mas isto, a meu ver, prova simplesmente que D. Pedro IV, por uma excepção historica, andou mais depressa do que o marquez de Pombal, cumprindo tambem notar que a idéa que o 24 de julho significa recebeu já a sancção official, porque está traduzida n'uma fórma de governo, e eu não creio que um paiz conserve uma fórma de governo que inteiramente lhe repugna.

Não posso affirmar á camara se o dia 8 de maio irá ou não cobrir de luto muitas familias; mas a prova de que as paixões estão ainda muito vivas e accesas é que{61} alguns dos conferentes, que se têem occupado do assumpto do centenario do marquez de Pombal, têem ouvido, por entre o ruido das ovações, corajosas demonstrações de desagrado.

Faça-se a festa, em todo o caso, visto que o governo entende não se dever oppor a ella nem deseja conservar-se indifferente, mas faça-se a festa com ordem e com moderação.

Estes creio eu que são os votos de toda a camara.

Finalmente, sr. presidente, a estatua erigir-se-ha. Mas a estatua, se não diminue, tambem não augmenta, a meu ver, a gloria do marquez de Pombal, reformador dos estudos, protector das industrias e restaurador de Lisboa. Quanto a mim, entendo que significa apenas um acto de deferencia do governo para com as letras, as industrias e a capital.

O marquez de Pombal vive ainda na universidade de Coimbra, nas fabricas da Covilhã, de Portalegre e em muitas outras; vive nos bellos arruamentos uniformes da cidade baixa. Quanto ao mais, esperemos que a justiça se vá fazendo lentamente.

Quando Sebastião José de Carvalho e Mello morreu, D. Francisco de Lemos, que lhe compoz o epitaphio em latim, disse n'elle que a propria academia lhe não quiz resar um requiem; hoje é a academia que lhe quer fazer um triumpho, embora contestado ainda...

Deixemos passar os seculos, e elles talvez façam o mais.