Sampaio foi toda a sua vida um ardente partidario da realeza. A monarchia havia saido ungida, sagrada do baptismo da liberdade. Sampaio guerreava à outrance o ministerio de 1846, porque entendia que esse ministerio, apoiando-se na força e na oppressão, desvirtuava a idéa de liberdade que na Europa progressiva servira de base á reconstrucção monarchica.
Se depois do estabelecimento do regimen constitutional a monarchia se desprestigiasse prematuramente, seria um sistema perdido, uma fórma de governo apodrecida antes de amadurecer. Como adversario valoroso{69} do antigo regimen, Sampaio combatia as ultimas raizes do absolutismo que tinham ficado ainda arraigadas em derredor do throno constitucional.
Depois da organisação regular dos partidos politicos, Sampaio foi sempre um monarchico, e muitas vezes atiçava a lucta jornalistica entre esses partidos, porque perfeitamente comprehendia que sem lucta partidaria as fórmas de governo degeneram na tirannia ou na anarchia: ou uma só facção dispõe de todos e de tudo, ou todos governam em tudo. Elle claramente percebia que a divisão dos partidos é um elemento de fiscalisação e de estimulo na gerencia dos negocios publicos, e de correcção e aperfeicoamento para o regimen estabelecido.
Grande parte da sua vida passou-a n'essas luctas, em interesse da monarchia. Frequentando o paço, foi sempre um monarchico, nunca foi um aulico. Para os monarchicos sinceros é esse um justo-meio difficil de conservar. Elle nunca o ultrapassou.
Mas para a sua velhice estava guardado o espectaculo do conflicto pela inversão violenta dos principios estabelecidos, pela postergação desordeira dos direitos sociaes, pelo desacato ás leis vigentes do reino, e pela irreverencia ás garantias que o codigo fundamental do estado concede a todos e a cada um.
Sampaio viveu muito; viu muito.
Ainda teve tempo para vêr isto. E como n'esta hora morria, era com essa idéa que sonhava no delirio da febre: «É preciso defender a monarchia.»
E é.
Os campos politicos estão claramente definidos, nitidamente demarcados: monarchicos a um lado, inimigos da monarchia a outro lado.
Os meios, que os nossos adversarios escolheram, são de sua inteira responsabilidade: nada temos com isso. Empreguemos nós os nossos, purifiquemos os nossos costumes politicos, procuremos fazer uma administração{70} rigorosa, firmar o credito nacional, velemos á porfia pelo exacto cumprimento da lei, melhoremos as nossas escolas e as nossas industrias, aproveitemos os serviços dos homens de boa vontade que nos offerecem a sua cooperação, e veremos depois quem triumpha.