Mas para que o consigamos é preciso não adormecer: é preciso defender a monarchia.


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VII

A livraria de Sampaio

Não ha nada que me entristeça tanto como assistir ao leilão de uma livraria, e comtudo attraem-me sempre esses espectaculos que me são dolorosos, e que se repetem em Lisboa quasi todos os dias.

São ordinariamente duas as causas que determinam este genero de leilões: a pobreza ou a morte. Qualquer d'ellas faz uma profunda impressão a todos quantos estimam os livros, não para os revender com lucro, mas para os ler com interesse. Os livreiros de profissão assistem a um leilão de livros com a indifferença profissional com que um medico assiste a uma operação cirurgica, e um enfermeiro á agonia de um moribundo. Estão á vontade, de chapeu na cabeça, fumando, commentando na giria do negocio o que se vae passando em torno d'elles, mas acompanhando sempre, com um fino olhar de raposa, a apparição dos livros e os movimentos do leiloeiro. E para um lado: Comprou bem; para outro lado: Comprou mal; ou, para um espectador{72} que lhe diz:—Quem comprou bem foi o senhor,—como se um livreiro pudesse comprar mal algum dia: Acredite que não ganho senão a encadernação.

Trata-se ás vezes de um livro, de uma obra que foi por muitos annos talvez o ideal d'esse pobre bibliophilo fallido ou fallecido. Não a podia comprar por ser pouco vulgar no mercado ou muito elevado o seu preço; mas pensava n'ella muitas vezes, tinha ciumes dos que a possuiam, corría todos os alfarrabistas a procural-a, havia muitos annos; fez porventura um grande, um enorme sacrificio para a comprar, mas finalmente achou-a, adquiriu-a, teve n'isso uma extraordinaria alegria, mostrava o seu thesouro com orgulho: Veja lá isto! Que me diz a isto?—uma edição muito bem conservada, uma verdadeira preciosidade!

Ha bibliophilos, honrados para todas as coisas d'este mundo, excepto para os livros. A Victor Cousin emprestaram de uma vez um manuscripto de Mallebranche. Reclamaram-lh'o; deu desculpas. Apesar de Cousin ser n'essa occasião ministro da instrucção publica em França, o dono do manuscripto mandou-lh'o pedir categoricamente. Cousin recusou-se a restituil-o. «Mas o manuscripto foi apenas emprestado, disse o intermediario; o dono exige-o, tem o seu direito.» «Sim, respondeu Cousin, elle tem o seu direito, mas eu tenho a minha paixão.» Nós cá, em Portugal, tambem temos bibliophilos d'este feitio, que se desculpam com a sua paixão, e vão ficando com os livros dos outros.

Livre preté, livre perdu, diz um proverbio francez. Os proverbios são filhos da experiencia, e convém por isso respeital-os. Gifanius respondeu uma vez a Gaspar Schopp, que lhe pedia emprestado um manuscripto de Simmaco: «Pedir-me emprestado o meu Simmaco! É como se me pedisse emprestada minha mulher!»