Uma livraria é um edificio que se constroe lentamente, dia a dia, e a que o proprio constructor não chega nunca a pôr a cupula. Por muito longa que seja{73} uma vida, toda ella se gasta a fazer uma bibliotheca, que se deixa sempre incompleta no momento em que a vida foge. Se essa bibliotheca é de livros antigos, se é classica, por muito que o bibliophilo investigue o passado, não consegue, á força de canceiras e dispendios, reconstruir toda a litteratura dos seculos que o antecederam. Ha sempre um thesouro encanado que elle não póde descobrir, que não póde achar. Se é moderna, é tão precipitado, tão febril o movimento litterario de nossos dias, que não seria possivel acompanhal-o ainda quando elle se não perdesse de vista um momento.

Pois bem. Esse edificio architectado dia a dia, hora a hora, com uma perseverança apaixonada, com um enthusiasmo sempre vivo, com uma fé sempre nova, e muitas vezes, por uma cruel sentença da sorte, desmoronado pela propria mão d'aquelle que o erigiu, e que primeiro despedaça o coração antes de derrubar a sua obra querida. Um dia vê-se obrigado a vender os seus livros, a atirar—elle mesmo!—esses volumes, tão amoravelmente guardados e lidos, para as mãos mercenarias dos livreiros—os gatos pingados da bibliographia—que fazem todos os funeraes das livrarias com a mesma indifferenca com que os outros arrancam os cadaveres do interior de cada casa para os irem despejar na voragem do cemiterio.

«Amigos, dizia Scaligero, quereis conhecer uma das grandes desgraças da vida? Vendei os vossos livros.»

Quasi todos os bibliophilos são ciosos dos seus livros; não consentem que ninguem lhes toque, muitos não querem que ninguem os veja. O cardeal Passionei tomou para o seu serviço um bibliothecario ignorante, e dava a razão d'isso: «A minha bibliotheca é o meu serralho: portanto, faço-a guardar por um eunuco.»

Mas se o bibliophilo se vê obrigado a vender os seus livros, a noticia de todos esses thesouros misteriosos, a revelação de todo o segredo da sua riqueza litteraria vae ser assoalhada em longos catalogos impressos, que{74} se espalham de graça, com uma publicidade profana, e esses proprios thesouros vão ser expostos a um publico de amadores e de vendilhões, de interessados e de interesseiros, que caem famintamente sobre elles, que os devoram com o olhar, que os disputam na praça, como se se tratasse apenas de uma barregã que se offerece ao publico, e se vende a quem mais der.

Até ahi, esses livros eram outras tantas vestaes, que alimentavam o fogo sagrado do espirito. Com ellas ninguem communicava profanamente. Só o sacerdote d'aquelle templo exercia o culto, n'um misterio impenetravel, como o da festa da Bona Dea na Roma antiga. Mas uma chusma de Clodios ousados e sacrilegos invade o santuario, desacata-o, profana-o, commette um sacrilegio atroz, e as vestaes de outr'ora volvem-se Messalinas, offerecem-se do alto das estantes, com uma crua impudicicia mercantil, á cupidez daquelles que não duvidam abrir a bolsa para satisfazer um capricho da sua phantasia.

Mas n'um leilão de livros, que se faz pela morte do seu dono, a profanação é ainda maior—talvez!

Pensei n'isto durante o leilão da bibliotheca de Antonio Rodrigues de Sampaio.

Este homem que a posteridade não poderá esquecer, comquanto houvesse nascido obscuro, chegára no seu paiz ás mais altas honras politicas, fôra ministro varias vezes, e, pouco tempo antes de morrer, presidente do conselho de ministros.

Á porta da sua casa—aquella mesma casa—ordinariamente fechada, batêra muita gente, timidamente, respeitosamente, para solicitar de Sampaio um favor. Todo o pretendente era introduzido por um criado na saleta, e ahi esperava, com o coração ancioso, que apparecesse, com o seu grande ar de bonomia, o velho Sampaio. Elle sabia bem o que era ter começado de baixo, ter entrado pela porta, ter subido degrau a degrau, e, ordinariamente, não se fazia esperar muito.{75}