Apparecia, pois, levantando o reposteiro de uma pequena porta á esquerda: era a sua livraria. Estava ali sempre, quasi sempre, de dia. Á noite, recebia os seus intimos, e tomava regaladamente o seu chá, com o guardanapo ao pescoço, como um bibe, mostrando-se guloso por bolos finos.

Pois desde que o leilão começára, a porta da rua estava aberta de par em par, escancarada, franca para todos os que passavam, e que subiam á vontade, falando uns com os outros, rindo, não encontrando criado algum que lhes tomasse o passo, não vendo em logar nenhum o correio do ministro do reino, que por tantos annos fez estação n'aquelle portal—ninguem, nem uma só das pessoas que tambem por tantos annos habitaram n'aquella casa.

A saleta estava quasi despida. As cortinas apanhadas, arregaçadas; das antigas alfaias apenas restava o candieiro de cristal. No sitio onde estivera o piano, entre a janella e o escriptorio, havia um grupo de bibliophilos que esperavam o principio do leilão. Á porta do escriptorio, estava atravessada uma longa mesa, a que os livreiros abancaram. Enquadrada na porta, a ampla figura do pregoeiro, que mascava um charuto, emquanto, dentro, os seus ajudantes preparavam os livros que primeiro haviam de ser postos em praça.

N'uma palavra, a morte profanára aquelle recinto que estava, para assim dizer, impregnado da individualidade de Sampaio. Havia em tudo aquillo um ar de terrivel devastação; parecia que o vento ardente do deserto passára por ali resequindo o coração de quantos haviam conhecido Sampaio. Sentia-se o simoun da morte que, ao passar, derrubara as alfaias e os livros, muitos dos quaes estavam amontoados no chão...

Não havendo catalogo impresso, o publico não sabia o que ia comprar. Esperava um pouco ao acaso que passasse por diante de si um livro bom; por isso, quando cada volume apparecia, as pessoas que estavam{76} sentadas levantavam-se para vel-o, as que estavam em pé estendiam curiosamente o pescoço para ler-lhe o titulo—ao menos.

Sampaio sublinhava a lapis algumas passagens dos seus livros.

No leilão, vendeu-se um exemplar dos Sophismas parlamentares, de Bentham, edição de 1840, prefaciada por Elias Regnault. Arrematei-o para offerecel-o a Julio de Vilhena, que tinha sido collega de Sampaio no ministerio de 1881. Em muitas paginas d'esse livro ha traços sinuosos, rapidamente lançados, denotando certamente que Sampaio estava lendo com interesse e que, desejando marcar um pensamento original, não queria retardar a leitura. Commentava mais com o espirito do que com o lapis; deixava apenas no papel um rapido signal indicativo para facilitar a busca.

Traduzirei alguns dos pensamentos sublinhados por Sampaio.

No prefacio de Regnault estão marginados todos os que se referem ao poderio politico da imprensa. Por exemplo: «Á imprensa pertence a iniciativa; á camara, a sancção; á imprensa, a invenção; á camara, a realisação.» «Antigamente, as communas tinham um simples direito de petição para obter a reparação dos aggravos, hoje, a imprensa é uma petição perpetua.»

No texto, estão sublinhados, além de outros, estes pensamentos de Bentham: