«A resistencia não é um direito; o triumpho, sim. Resisti, e Blackstone vos condemnará; mas triumphae resistindo, e Blackstone vos adorará.»

De quantos livros se venderam no leilão Sampaio, um dos mais annotados era com certeza a Histoire des origines du gouvernement representatif en Europe, de Guizot, edição de 1851. Duas passagens d'esta obra, sempre notavel, estavam marginadas por abreviaturas, que não pude entender. Mas as sublinhas a lapis são tão frequentes, sobretudo em certas passagens, que chegam a tracejar toda a pagina.

Um dos trechos sublinhados é o que respeita á theoria da soberania:{78}

«A idéa mais geral, que se póde procurar n'um governo, é a sua theoria de soberania; isto é, a maneira por que elle concebe, colloca, e attribue o direito de dar e de fazer executar a lei na sociedade.

«Ha duas grandes theorias de soberania.

«Uma procura-a e colloca-a nas forças reaes que existem sobre a terra, qualquer que seja a força: povo, monarcha, ou principaes do povo. Outra sustenta que a soberania de direito não póde existir na terra, e não póde ser attribuida a força alguma, porque não ha força terrestre que conheça e queira inalteravelmente a verdade, a razão e a justiça, unicas fontes da soberania de direito, que devem regular a soberania de facto.

«A primeira theoria de soberania funda o poder absoluto, seja qual fôr a fórma de governo. A segunda combate o poder absoluto sob todas as fórmas, e não reconhece em caso algum a sua legitimidade.

«Não se diga que qualquer d'estas theorias reina exclusivamente nos diversos governos. Ao contrario, misturam-se n'uma certa medida, porque não ha nada que seja completamente destituido de verdade nem inteiramente isento de erro. Todavia é sempre uma ou outra que predomina em cada fórma de governo, e que póde ser considerada como seu principio.

«A verdadeira theoria da soberania, isto é, a illegitimidade radical de todo o poder absoluto, quaesquer que sejam o seu nome e logar, é o principio do governo representativo.»

O estudo feito sobre as passagens sublinhadas ou annotadas por Sampaio é altamente curioso como elemento critico para a caracterisação historica do annotador.