Não foi, porém, isso que desejamos fazer. Propuzemo-nos apenas lançar no papel as impressões que nos deixou o desmoronar da sua livraria. Ellas ahi ficam expostas com a sinceridade que sempre tivemos para com o illustre jornalista, e que elle sempre teve para comnosco.
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VIII
Saraiva de Carvalho[5]
O scenario era triste.
A atmosphera estava de uma dureza sombria. Uma chuvinha miuda, como se caisse de um crivo, parecia cristalisar em missangas na copa dos chapeus de feltro, nas barretinas dos soldados, e nos tricornes dos cocheiros das berlindas. Das arvores do cemiterio dos Prazeres, e da cimalha do portico, escorriam gottas de agua como lagrimas. O Tejo, visto da explanada, estava crespo e amarello, erriçado de pequenas ondas revôltas e torvas. O povo, n'uma attitude respeitosa e concentrada, esperava. Algumas senhoras erguiam os seus chapeus-de-chuva franjados de rendas de orvalho, que se desfaziam e renovavam a cada momento.
Finalmente, a cruz alçada appareceu, precedendo duas filas de padres, cujas sobrepelizes pendiam, amolecidas{80} pela chuva, sem brilho e sem consistencia. Atrás, a urna de mogno, que continha os restos mortaes de Saraiva de Carvalho, caminhava vagarosamente, n'uma oscillação solemne, através de um silencio lugubre.
Nada mais triste do que o enterro de um homem novo, sobretudo quando esse homem vivera pelo espirito nas luctas do talento.
A velhice é uma justificação da morte. Ella tem, com effeito, o direito cruel de matar. Ninguem lhe pergunta por que o fez. Reconhece-se que a sua missão é extinguir e decompôr. Lamenta-se o facto, mas ninguem se revolta contra elle. De mais a mais, as longas existencias deixam após si uma extensa chronica, cheia de opisodios, de alternativas, de cambiantes e de anecdotas. Recordal-as, é desviar por momentos a attenção para um assumpto menos triste do que a morte; é fugir do facto material do aniquilamento para o mundo pittoresco da imaginação, que se compraz em reconstruir épocas passadas, em resuscitar homens que já não existem, e que foram no seu tempo o mobil ou os actores de acontecimentos importantes na politica, na litteratura, nas sciencias, nas artes, na industria, no commercio ou nos salões elegantes da sociedade.