Deante, porém, do cadaver de um homem novo, o espirito encontra n'esse mesmo espectaculo motivos de sobejo para accusar a morte por ter invadido os direitos da velhice e por haver, como um tigre, surprehendido por assalto uma victima desprevenida e tranquilla. Depois, os que morrem novos deixam uma pequena biographia, por maior que haja sido o seu talento e o seu poder. Á beira do seu tumulo, todas as attenções se fixam n'elle; a imaginação não encontra um passado bastante longo para se demorar reconstruindo-o. De modo que, á força de olharmos para o cadaver, sente-se mais o frio da morte e o effeito terrivel da sua devastação prematura...{81}

Saraiva de Carvalho, tendo morrido com quarenta e tres annos de idade, foi tres vezes ministro. Não basta isto para o julgarmos velho na politica, e para imaginarmos que elle tivesse concluido a sua missão de homem publico. Longe d'isso. Para nós, francamente o dizemos, o seu periodo de verdadeira gloria começava apenas, e as suas qualidades de estadista principiaram a definir-se durante o ultimo dos seus tres ministerios, porque os dois primeiros foram mais uma contingencia da politica do que uma conquista por direito.

Além de que, seriamos injusto se n'um pequeno periodo de nove dias, que tantos foram aquelles em que Saraiva de Carvalho geriu a pasta da fazenda, quizessemos encontrar um profundo vestigio da sua passagem pelo poder em 1869.

Então, era Saraiva, como todos os homens da sua idade, um theorico, um preleccionador, um inexperiente. Vinha do Gremio Litterario, onde mostrára as suas aptidões intellectuaes, que eram já então incontestaveis. Mas a intelligencia, por mais brilhante que seja, precisa amadurecer. Não ha estufas para o espirito. É, pelo contrario, nas intemperies, é nas mil conflagrações da atmosphera social, que elle se robustece e fructifica. Mas, como homem intelligente que era, Saraiva de Carvalho comprehendeu que precisava justificar no futuro a posição honrosa que por nove dias occupára. 1869 era para elle um estimulo, e uma responsabilidade. E como fosse tambem um homem brioso, deixou-se dominar pela idéa fixa de mostrar ao seu paiz que servia para mais alguma coisa do que ser ministro por nove dias, e que o marquez de Sá da Bandeira não fizera emergir nos conselhos da corôa um homem completamente inutil.

Desde o dia em que o ministerio caiu, Saraiva de Carvalho pôz toda a sua energia e toda a sua intelligencia ao serviço d'este nobre pensamento: não recuar. Estudou, trabalhou, perseverou, e os seus partidarios{82} premiaram os seus esforços honrados e justos levando-o de novo ao poder em 1870.

A politica portugueza estava então n'um periodo agitado, que tornava ephemera a vida dos ministerios, e as origens revolucionarias do movimento popular de 1868 deram ás luctas da politica um caracter de ardor e de enthusiasmo que não era decerto o mais conveniente para tornar friamente reflexiva a cabeça de um homem novo.

Saindo pela segunda vez dos conselhos da corôa, Saraiva de Carvalho conservou ainda por algum tempo todo o afôgo que a sua proveniencia politica explicava, e a sua idade mal sabia reprimir.

Nas pugnas da palavra avançava para a brecha, cheio d'essa coragem que chega ás vezes a parecer precipitação, cheio d'esse ardor indomavel que não raro se confunde com a impaciencia. Todavia, ainda quando mais vehemente era nos seus discursos, e houve alguns em que o foi muito, os seus proprios adversarios reconheciam que elle não usurpava o logar de ninguem combatendo na primeira linha de atiradores. Então tinha já conquistado o seu posto de honra, tinha ganho as suas esporas de cavalleiro; não era um intruso, um adventicio; achava-se investido do mais sagrado e do mais glorioso dos direitos—aquelle que o talento confere.

Para ser um completo homem de estado, faltava-lhe todavia alguma coisa, a evolução por que o espirito dos homens passa quando na arvore da sua experiencia o primeiro fructo desponta, e elles levantam a mão para colhel-o.

E na vida de Saraiva de Carvalho esse periodo evolutivo havia chegado agora, definitivamente. Voltando ao poder em 1879, occupára-se dos assumptos da pasta das obras publicas com uma attenção intelligente e com uma grande perseverança trabalhadora. Debaixo do meu ponto de vista politico, não posso concordar{83} com alguns dos seus actos; mas não posso deixar de reconhecer que o seu espirito havia passado por uma transformação fructuosa e largamente promettedora. Como orador, comprehendeu profundamente as exigencias da sua posição official, e modificou-se notavelmente, sobretudo no discurso que como ministro proferira na camara dos pares.