Então, a victima começa a sentir picar-lhe nas carnes a urticação da colera, arranca a gravata com que entrára na arena, despe a sobrecasaca, empunha o cacete do seu estilo, e principia a atirar bordoada de cego sobre os contrarios, como um valentão de feira.

E como vá ganhando gosto a este exercicio de jogador de pau, já umas vezes por outras descarrega o{85} fueiro sobre os seus proprios amigos—por engano, é claro.

Segundo os nossos habitos politicos, os jornaes podem fazer-se rapidamente por meio de um cliché inalteravel; estão sempre feitos, e o terem redactores é quasi um luxo.

Referindo-se a um orador governamental, dizem as folhas opposicionistas no dia seguinte:

«É incalculavel o numero de babuseiras que o sr. F. teve a ousadia de despejar hontem em pleno parlamento. A verdade andou a pontapés pela sala, e o orador parecia satisfeito de vêr que estava agradando ao governo que lhe encommendou o sermão, talvez para lh'o não pagar.»

Mas os papeis invertem-se, se é uma folha do governo que está apreciando um orador da opposição:

«A comedia foi bem representada. Como truão, o orador é perfeito. Fingiu-se indignado, bateu murros sobre a carteira, arremessou ao chão varios papeis, e entornou pelas costas de um collega o copo de agua. No fim de contas, para que? Para ver se o governo se intimida, e lhe atira com uma posta gorda.»

No meio d'este tiroteio de calumnias e de insidias, uma pneumonia, um tipho, uma apoplexia lembram-se de atirar para o cemiterio um homem da opposição ou um homem do governo.

A mutação de scena é completa, n'este caso.

Toda a gente gasta quinze adjectivos para elogiar o morto, e quinze tostões para o acompanhar ao cemiterio. Cada um empunha reverentemente uma tocha para allumiar o feretro com a mesma mão com que ha dias empunhava a penna para lhe denegrir a reputação. E quando o prior, manejando o hissope, borrifa de agua benta o cadaver, não passa pelo espirito de nenhum{86} dos que ali estão—que lhe fizeram a mesma coisa com tinta de escrever e lama das ruas.