Perante a verdade terrivel dos gatos pingados e da berlinda, diz-se a respeito de um ministerial fallecido:
—Era um homem honrado, e serio. Foi um correligionario dedicado, e o governo não teve coisa nenhuma que lhe désse!
E a respeito de um opposicionista morto:
—Era um homem serio, e honrado. Nunca procurou um ministro para lhe pedir qualquer coisa! Isto é raro hoje em dia...
Dizia com graça um homem politico importante, que se achou de uma vez ás portas da morte:
—Estive tão mal, que já os periodicos começavam a dizer bem de mim!
O que seria se tivesse fallecido! Nem elle podia calcular...
No fim de contas, isto é um paiz de gente honrada. Os ministros saem do poder insultados e empenhados. Toda a gente deve. Todos padecem dôr de colica no dia em que são obrigados a pagar a renda das casas. Os homens mais poderosos na politica ficam arruinados com os direitos de uma gran-cruz, e se teem duas já não podem desentalar-se mais. As repartições de fazenda sabem-n'o bem. Se os delegados do thesouro quizessem, e os seus subordinados obedecessem, a maior parte das familias do paiz ficava arruinada de um dia para o outro.
São rarissimas em Portugal as pessoas que podem adormecer sem que uma espada de Damocles impenda sobre ellas. A penhora é uma ameaça eterna n'este paiz. Mas, em compensação, ninguem se desacredita mais do que os portuguezes, nenhum outro povo parece fazer maior gosto de passar por deshonesto aos olhos de si mesmo.
Ora, a respeito da politica, eu deixava-me embalar por uma doce illusão. Parece-me que ia dizendo isto...{87}