O marechal Saldanha, costumado a conhecer os homens na guerra e para a guerra, mostrou que tambem sabia conhecel-os na paz e para a paz.

Foi elle, o bravo militar, o venerando vencedor das nossas luctas politicas que descobriu em Fontes Pereira de Mello a individualidade poderosa de um estadista eminente.

O marechal adivinhára que esse moço elegante, de maneiras distinctas, a que a rainha D. Maria II chamava o seu «ministro janota», havia de completar pela paz a obra que elle havia começado pela guerra.

E confiando-lhe as mais importantes pastas no ministerio da regeneração, creando até expressamente para elle uma pasta, a das obras publicas, pareceu dizer-lhe:

—Um velho, que trabalhou para dar á sociedade portugueza a liberdade a que ella tem direito, entrega a sua obra nas mãos de um homem novo para que a consolide e complete.

Fontes Pereira de Mello recebeu das mãos de um vivo esse nobre legado, e desde então, até á ultima hora da sua vida, não fez senão respeital-o e cumpril-o.

Desde então Fontes ficou pertencendo ao paiz, consagrou-lhe a existencia, trabalhou para enriquecer a patria, para desenvolver todas as forças vitaes da nação, para fomentar todos os elementos de riqueza publica, e esse homem, que não fez senão amontoar capital para os outros, esse homem que enriqueceu o commercio e a industria da sua terra, esse homem por cujas mãos passára a gerencia das receitas do Estado cada dia mais avantajadas, acaba de morrer pobre, com o nome que recebêra de seus paes, e foi conduzido ao cemiterio não sob a purpura dos principes, mas apenas{92} com a bandeira portugueza por cobertura do seu feretro.

Os funeraes de Fontes Pereira de Mello não foram a apotheose official dos altos funccionarios publicos; foram mais do que isso, e melhor do que isso, foram a glorificação de um cadaver feita por um povo inteiro do meio da mais profunda commoção que póde ferir o coração de um paiz.

A espontaneidade do sentimento nacional é a mais invejavel deificação dos homens illustres. Fontes Pereira de Mello acaba de ter essa deificação feita de lagrimas, essa grandiosa deificação que não se recommenda, que não se aconselha, que não se ensina, mas que rebenta do coração de todas as classes sociaes, como a lava rebenta da cratera de um vulcão, e que explude n'uma grande e profunda erupção de sentimento ingenuo e sincero.

Lisboa inteira acaba de assistir a esse espectaculo memorando, que ficará para sempre gravado na memoria infantil dos nossos filhos, tão imponente, tão grandioso elle foi.