Fontes Pereira de Mello, vivendo entre a primeira sociedade portugueza pelos elevados cargos que o seu merecimento pessoal lhe conquistára, não vivia todos os dias com as classes inferiores, não era um homem que o povo visse passar atraves da multidão nas ruas da capital.
Mas, o que é melhor, vivia mais no coração do que nos olhos do povo. Provou-se agora que isto era assim. Não obstante as luctas da politica, que por vezes procuravam deslustrar o caracter de Fontes Pereira de Mello, o povo conservava por elle um grande culto de estima e respeito, o povo comprehendia que aquelle homem trabalhava para a nação, não para si, e, quando soube que o illustre estadista morrera, ficou gelado de surpresa, correu a visitar a sua camara funeraria, foi postar-se, respeitoso e triste, nas ruas por{93} onde o feretro havia de passar, affluiu, n'uma agglomeração enorme, ao cemiterio onde o cadaver de Fontes Pereira de Mello repousa para todo o sempre.
E o povo não se enganou pensando que esse preclaro estadista trabalhára para o povo.
Todos os que trabalham para o futuro e pelo futuro é para o povo que trabalham.
Poucos estadistas haverão tido como Fontes Pereira de Mello mais confiança no futuro, e se o povo se não enganava, tambem não se enganava o estadista, porque o futuro ha de lhe dar rasão, como, na vida do campo, os beneficios da colheita justificam os trabalhos da sementeira e da cultura.
Fontes Pereira de Mello passou toda a sua vida publica a semear para colher, a demolir o passado para construir o futuro.
Elle bem sabia que, mortal como todos os outros homens, não teria tempo de ver completamente sazonada a messe que tão desveladamente semeára e cultivára.
Mas que lhe importava isso? Não trabalhava para si, trabalhava para os outros.
E trabalhava sem descansar, sacrificando ao trabalho a sua propria saude.
Parar é morrer. Eis o lemma glorioso da sua vida politica, eis a divisa cavalheirosa de toda a sua carreira de estadista.