Foi elle que imprimiu á moderna sociedade portugueza o movimento que n'este momento historico a vitalisa e anima. Abriu as portas do trabalho ás classes operarias, e impelliu-as para as conquistas pacificas do progresso. Os povos são como as machinas: o que é preciso é imprimir-lhes movimento para que adquiram velocidade. Depois trabalham por si mesmos.
Os canticos funebres que acompanharam ao cemiterio dos Prazeres o cadaver de Fontes Pereira de Mello não irromperam apenas dos labios dos sacerdotes que{94} tinham ali a desempenhar uma funcção liturgica. Irromperam ao mesmo tempo de todas as regiões do paiz, partiram de mil boccas, eram articulados por mil gargantas differentes: saiam de todas as fabricas, de todas as officinas, saiam dos teares e das locomotivas, eram, n'uma palavra, a grande voz do progresso que elle, primeiro do que ninguem e mais do que ninguem, fomentára em Portugal.
Não podia ter mais gloriosos responsos o cadaver de um morto illustre.
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Estou agora a lembrar-me da primeira vez que fui recebido em sua casa.
Era na rua de S. Bento, em noite de recepção politica. Fontes, de casaca, viera ao meu encontro, dissera-me palavras amaveis. Perguntou-me se eu gostava de jogar. Respondi-lhe que apenas sabia jogar o voltarete.—Mas gosta certamente de ver jogar bem o bilhar, replicou Fontes; o meu collega Barjona está jogando, e vale a pena ir vel-o.
Fui. Meia hora depois, Fontes dirigira-se a mim pedindo-me que fosse fazer uma partida de voltarete com o visconde de N. e com o capitão de mar e guerra M. Eu quiz desculpar-me; mas Fontes, argumentando com a minha confissão anterior, insistiu. Foi apresentar-me aos dois parceiros, que já estavam abancados, e retirou-se.
Nas combinações preliminares do jogo, tratou-se do preço.
—Não sendo caro não diverte, disse o visconde de N.
—Como quizerem, respondeu o capitão de mar e guerra M.{95}