Eu vi-me obrigado a obtemperar:

—Estou ás ordens de v. ex.as

Então o visconde de N. estipulou que jogariamos a cinco tostões, talha de roda, duas talhas o que désse cartas.

Senti um frio glacial ao longo da espinha. Eu, que sempre fui pobre, vivia então com immensas difficuldades: tinha apenas na algibeira quatro libras incompletas—um acaso que eu reputaria feliz em qualquer outra occasião.

A preoccupação da situação embaraçosa em que me achava collocado desorientou-me e afugentou a sorte. Quando se serviu o chá, havia immensas remissas: as minhas deviam orçar por quarenta mil réis.

Emquanto os meus dois parceiros tomavam chá, corri as salas, n'uma grande excitação nervosa, á procura de um amigo. Encontrei-o, felizmente para mim, e expuz-lhe o embaraço em que me encontrava, e que tivera por origem uma confissão ingenua.

—Não se afflija, disse-me rindo esse bom amigo.[7]

Pegue lá a minha bolsa, que está recheada: recebi hoje umas rendas. Nem eu sei ao certo quanto é.

Acabavam os meus parceiros de tomar chá, quando eu voltei á sala do jogo. Continuamos jogando. A felicidade attrae o dinheiro, como o iman attrae o aço. Mais tranquillo de nervos, comecei ganhando. A bolsa do meu amigo foi para mim um talisman. Ás duas horas da madrugada, quando os meus parceiros quizeram, levantei-me do jogo ganhando 32$500 réis. Nunca esta cifra me esqueceu.

Em plena rua, respirei desafogadamente. E metti ao largo do Rato, tomei pela calçada do Salitre, pensando, como certo philosopho, que se a eloquencia é de prata,{96} o silencio é de oiro. Nunca eu tivesse feito aquella confissão ingenua de que jogava o voltarete...