Á esquina de Val-de-Pereiro encontrei dois homens, dois fadistas parados. A calçada estava deserta. Um d'elles atravessou, de modo que eu havia de passar entre ambos. Quando o da direita tinha avançado para mim, assomou no topo da calçada uma carruagem, que naturalmente vinha de casa de Fontes. O homem ainda chegou a perguntar-me que horas eram, mas, vendo a carruagem, estacou. Gritei ao cocheiro que parasse, e pedi á pessoa que ia dentro do trem que me permittisse tomar logar na almofada.—Aqui dentro, aqui dentro, sr. Alberto Pimentel, respondeu uma voz de homem. Agradeci, e subi para a almofada..
E se eu tivesse sido roubado! Se me tivessem roubado o dinheiro alheio, e o meu! Ah! que noite de torturas que essa foi!
No Rocio gratifiquei o cocheiro, apeei-me, e agradeci á pessoa que ia dentro do trem, a qual ainda hoje não sei quem fosse.
Passados annos contei este caso a Fontes. Elle riu-se muito, e, ás vezes, se estavamos n'um circulo de amigos, pedia-me que reeditasse a historia, a que achava graça.
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De uma vez tive de pedir a Fontes um adeantamento para um amigo meu. Fil-o muito contrariado, por dever de amizade.
Fontes, que era então ministro da fazenda, poz a luneta, leu o requerimento, e perguntou-me:
—Tem muito empenho n'isto?
—Tanto, respondi, quanto se póde ter em servir um amigo sincero.{97}
Fontes despachou favoravelmente. E, entregando-me o papel, disse-me: